23 dezembro 2012

O velho mundo de sempre





Se você está lendo este texto, é porque o mundo não acabou no dia previsto pelos alarmistas de plantão. Quem torrou tudo o que tinha no cartão de crédito e no cheque especial, quem falou para o chefe tudo que estava engasgado desde a admissão no emprego, quem cantou a mulher do vizinho campeão de MMA, quem tomou um porre e soltou a franga, saiu do armário e rodou a baiana crente como o mundo ia mesmo acabar, deve estar se pondo a grande questão filosófica: como é que vou encarar essa mesmice?
Não adianta espernear. Este é o mundo que temos para hoje e desconfio que o teremos ainda por um bom tempo. Judeus e palestinos continuarão a se matar, todos cobertos de razão. A China continuará a nos entulhar de quinquilharias e reduzir nossos empregos a pó. A guerra e a aids vão continuar despovoando a África até o último africano. As primaveras democráticas continuarão sendo substituídas pelos invernos totalitários. Os ricos vão continuar ricos e os pobres vão continuar pobres. E neste imenso gigante sonolento continuará valendo o princípio da “farinha pouca, meu pirão primeiro”.
Felizmente, o mundo não acabou, pois as férias da moçada mal começaram e nestas margens do Atlântico estão acontecendo umas manhãs cinemascópicas. E se o mundo não se acabou, ainda dá tempo de telefonar para aquele amigo lá longe, mandar um e-mail para a parentalha, botando a casa à disposição. Dá para visitar aquela turma que a gente só encontra nos velórios dos amigos comuns. Dá pra conversar com aquele vizinho mal humorado que acorda você com o som nas alturas.
Em vez do fim do mundo, qualquer um pode curtir um fim de tarde com quem gosta. Pode sair no fim de semana para um lugar diferente com quem ama. Pode chegar no fim do mês liso, mas feliz. Pode viver os dias do fim do ano sem lutar contra o tempo, sem buzinar nos congestionamentos, sem brigar com a moça do caixa.
Melhor pra mim, que o mundo não tenha acabado. Fico pensando como ficaria eu sem o mundo. Sem o mar de Cabedelo, sem a ponta do Cabo Branco, sem a Serra da Borborema. Sem trabalho pra trabalhar, sem rede pra descansar, sem bebida pra beber.
Melhor pra todo mundo que o mundo não tenha acabado. Fica todo mundo vivo, não sai ninguém e vai todo mundo botar a patinha na consciência para ver as besteiras que anda fazendo para acelerar o fim do mundo.


Ilustração: Gustave Courbet "La Rencontre, ou Bonjour Monsieur Courbet"

17 dezembro 2012

Os bichos, a palha





Não importa se é mito, não importa se é fato. Crente ou descrente, nenhum membro da cultura ocidental pode ficar alheio à figura do Cristo. Principalmente às imagens estabelecidas como o princípio e o fim da sua vida terrena. Dispensemos, por hora, a imagem da solidão e do sofrimento do Calvário. Vamos ficar com a imagem da origem, aquela cena simples do menino deitado na palha, velado pelos bichos, sob os olhos dos pais. Não precisamos de nenhum recurso à divindade para compreender o que tal cena nos quer dizer. Ali está representado, ao mesmo tempo, todo o desamparo humano e as possibilidades da sua reparação. 

A marca do humano é o desamparo. Somos lançados prematuramente no mundo, antes que tenhamos alcançado o nível de desenvolvimento suficiente para fazer o que qualquer mamífero consegue: erguer-se sobre as patas e buscar o peito da mãe. Deixado as suas próprias custas, o ser humano não vinga. Para isto estão ali o pai e a mãe do menino. Para fazer por ele o que o seu desvalimento não permite. 

Mas o que representam, então, a manjedoura e sua palha, os animais e seu silêncio? Cada um de nós pode tentar sua própria interpretação. Para mim, a pobreza do cenário serve para dizer que não se precisa de muito para estar no mundo. Para o frio da noite do deserto, está ali o calor da palha. Para as tentações do poder dos homens, ali está a humildade dos bichos. 

O menino vai crescer, vai deixar seus pais, vai correr o mundo pregando uma mensagem até hoje incompreendida. E quanto mais longe estiver deste cenário de origem, quanto mais certeza tiver da sua divindade, mais perto estará da imagem final da solidão e do sofrimento. Por isso, a cada ano, devemos nos lembrar que para sermos solidários em nosso desamparo de humanos, precisamos guardar em nós o calor da palha, a humildade dos bichos. melhor hospedagem de sites

Imagem obtida em: peregrinacultural.wordpress.com

11 dezembro 2012

Amigos de cabeceira





Faz tempo que os dois estão no quarto comigo. Se eu perder o sono, como bons amigos, eles são capazes de passar a noite acordados comigo, me dando prazer, mexendo com minha imaginação. Um se chama “onde a minha rolleiflex?”, o outro, “A idade das chuvas”. Dois maravilhosos livros de poemas.  O primeiro foi escrito por Márcia Maia e o segundo por André Ricardo Aguiar.
 O de Márcia Maia chegou primeiro. Ganhei na mesma noite em que foi lançado como vencedor dos Prêmios Literários Cidade do Recife. Noite boa, rodeada de amigos, no salão de festas do velho teatro do Brum, na parte antiga da cidade.
O de André Aguiar, fui buscar mais longe, num bar superdescolado em Vila Mariana, São Paulo. Noite boa, rodeada de gente que nunca tinha visto, mas que eram meus íntimos. A melhor qualidade de um bar é a de tornar amigos de infância gente que nunca se viu na vida.
Mais do que dois livros, são dois cúmplices que dormitam em minha cabeceira. A qualquer sinal de insônia, eles também se acordam e me perguntam se quero conversar. Quero sim. E o primeiro me diz: “por detrás do temporal/o céu tremula”. E se aquieta meu coração que se acordou aos pulos com o sonho ruim. E o outro arremata: “Nada pesa/mais que o coração”. E o meu coração pesado mais se aquieta.
Sei que alguns leitores zangados vão dizer que poemas não são feitos para aquietar o coração de ninguém. Até concordo com eles. Mas é preciso que o poema primeiro dite o tom que precisa para entrar em sintonia com o leitor. Depois, matreiro, enche você de inquietação.
E o que mais me inquieta em Márcia Maia são os ritmos insólitos que consegue extrair dos seus poemas. É uma técnica só dela, que nos impõe a cadência exata que emoldura o sentido das palavras.
Já em André, inquieta o insólito das imagens, a mudança brusca do sentido em direção oposta ao lugar comum que o leitor viciado ocupa.
Por mais um bom tempo esses amigos velarão á minha cabeceira. Até que se cansem das minhas insônias e queiram se mudar para uma prateleira cômoda, onde possam dormir sossegados.  

10 dezembro 2012

O baú do anão


04 dezembro 2012

Coração perdido




Era mais ou menos por ali, numa dessas árvores do bosque por trás da gaiola das araras. Eu adoro araras, disse ela. E ficou batendo os braços como asas, gritando com a voz esganada: arara, arara. Ele ficou meio encabulado, mas depois achou graça nela sendo arara. Achou graça assim, sem rir. Quando ela parou, ele segurou na mão dela e foram em direção ao bosque por trás da gaiola das araras.
Quanto tempo fazia? Quarenta, quarenta e cinco? Não era bom nesse negócio de tempo. Sabia apenas que fazia muito, muito tempo que estiveram ali, na sombra daquele bosque de temperatura amena, quase fria. Muito tempo, mas ele ainda sentia a pressão dolorida da casca da árvore na palma de sua mão. Da tensão do seu braço estendido apoiando o peso do seu corpo. Do jeito dos olhos dela pedindo que ele se chegasse mais. Do calor do corpo dela quando ele se chegou mais.
Não se lembra quanto tempo ficaram assim. Não era bom nesse negócio de tempo, já disse. Lembra, sim, de cada beijo, de cada parte do corpo dela por onde viajou sua mão. De cada suspiro que ela deu e de quantas vezes disse meu amor. Lembra do canivete no bolso, do canivete na mão, do canivete na casca da árvore desenhando um coração. E dentro do coração a letra agá de Henrique e a letra tê, de Tereza.
Foi mais ou menos ali, no fundo daquele bosque, por trás da gaiola das araras. Nesse lugar, por onde agora ele errava, os olhos trespassando as árvores em busca de uma árvore que não estava ali. Procurava uma árvore com um rapaz, uma moça e um coração com duas letras. Procurava um tempo que dormia naquele bosque, cansado de esperar por eles dois.
Arara, arara, gritava a arara, ainda ali, como se fosse ela.

Este conto faz parte do meu novo livro "O baú do anão".

27 novembro 2012

Lembrança



Traga uma lembrancinha pra mim, ela pediu. Qualquer coisa simples que faça você lembrar de mim, ela falou, oferecendo a boca para a despedida. 

Ele entrou no ônibus sabendo o cansaço que o esperava. Ia para longe, alto sertão, mais de doze horas de viagem. Cidade perdida entre serras. Ia ser difícil encontrar alguma coisa para ela. 

O ônibus rolando pela estrada reta, hipnótica. O sol da tarde batendo de frente, ofuscando através do vidro fumê. Impossível dormir. O olhar compulsório não registrava nuances. Vastas planícies de vestes rasteiras e o horizonte de serras inalcançáveis. 

Saiu no começo do dia, chegou no começo da noite. Um resto de luz teimando no poente, um resto de calor que cedia à frieza. A pousada em penumbra. A noite revirada na cama. A manhã que custou a chegar. 

Com a manhã, os passarinhos. De onde vinham e para onde iriam tão logo o sol esquentasse? E as pessoas, onde estariam com suas vozes arrastadas e suas poucas respostas? E os bichos pequenos que não se mostravam, chispando entre as folhas ralas dos arbustos? 

Era muita luz para o pouco a ser iluminado. A palavra agreste armou-se em todo seu sentido. Luz demais sobre quase nada. E este era o desafio. Forçar os olhos a ver o que a luz escondia. Inventar sombras. Criar movimentos. 

Lembrança. Que lembrança levar para ela. Nada para comprar, nem pedir, nem achar. E estes olhos viciados aos contrastes chapados dos signos urbanos eram cegos para a beleza cantada pelos versos agrestes dos poetas. 

Lembrança. Era isto que tinha para dar a ela. A lembrança dela o tempo todo enfeitando a paisagem impenetrável. Ela mesma impedindo que a paisagem se abrisse aos seus olhos. Era ela, a lembrança dela que o impedia de encontrar alguma coisa que levasse de lembrança. 

Foi isso que ele deu a ela. A lembrança dela o tempo todo ofuscando a visão, saturando a memória. Foi isto o que tentou dizer ao mostrar as mãos vazias e as retinas fatigadas com a imagem dela.

Este conto faz parte do meu livro "O baú do anão" que será lançado na próxima quinta-feira, 
a partir da 19:30 h, no Terraço Brasil, na Praia de Cabo Branco, em João Pessoa. 

21 novembro 2012

Ao pó



Tu és pó e ao pó voltarás. Disse isto em frente ao espelho da penteadeira, já com a esponja de pó de arroz pronta para passar no rosto. Demorou-se um pouco com a mão suspensa, resignada com o tempo que se recusava a entrar também em suspensão. 
Quem disse que não se pode ver o tempo? Ela o via ali, em sua frente, refletido no espelho oval do móvel antigo. O tempo tinha a sua cara. Ali estava escrito o passar das horas, dias, anos, décadas de uma vida às vezes bem vivida. Ali também estavam os traços de outras vidas, herança confirmada pelos álbuns de fotografia. 
Olhava o tempo em sua frente sem remorsos. Tentou lutar contra ele e perdeu. Gastou fortunas com cremes milagrosos. Desperdiçou safras de pepino em rodelas. Paralisou-se com litros de botox. Chegou até pegar o número do cirurgião plástico. Mas não passou daí. 
Olhava agora de frente para o tempo. Até gostava um pouco do que via. Cada marca daquela era uma letra do poema que o tempo escrevera no seu rosto. Não queria apagá-lo, voltar a ser uma folha em branco. 
O que não precisava era que o poema fosse exposto nos mínimos detalhes aos transeuntes. Um pouco de mistério nunca fez mal a ninguém. E para isso tinha o bom e velho pó de arroz.lista de emails

Este conto faz parte do meu novo livro O baú do anão que será lançado na quinta-feira, 6 de dezembro, a partir das 19h30, no Terraço Brasil, praia de
Cabo branco, João `Pessoa - PB

12 novembro 2012

Desastre matinal




A manhã deslizava em paz, com sua luz, seus cheiros e sons de costume. O ronco do liquidificador anunciava o suco generoso que logo teríamos sobre a mesa. Do fogão, o pão assado mandava o seu recado: chegaria em breve, logo depois das frutas.  

         Como todo bom desastre, este não se anunciou. Explodiu de repente no chão da sala, cobrindo um largo espaço com uma mancha avermelhada. De uma forma inexplicável, o fundo da jarra separou-se do bojo num corte quase perfeito, deixando vazar num jato todo o suco que se espalhou sobre o piso.


         A partir daí, a manhã não foi mais a mesma. O inusitado quebrou sua previsibilidade, exigindo ações estranhas aos ritos matinais. Levantar da mesa, conferir o prejuízo, confortar a funcionária zelosa das suas qualidades em combinar as frutas dos sucos.  Depois, ficar matutando sobre os mistérios da vida, pois nunca se poderia imaginar que uma jarra de vidro tão forte pudesse nos faltar de forma tão abrupta num momento em que mais precisávamos dela.

         Nunca se sabe os rumos que pode tomar uma manhã. Tardes e noites também são imprevisíveis. Por mais que tenhamos cuidado para que o bonde ande em cima dos trilhos, pequenos descarrilamentos sempre podem alterar nossa rotina. Claro que não estou falando de grandes desastres, catástrofes climáticas, tsunamis econômicos, julgamentos do STF. Falo de pequenas coisas aterradoras, como a empregada faltar na segunda-feira, o gás acabar na hora de acender o forno para o jantar da sexta-feira, o parente chato avisar que vai chegar com a família para o feriadão.

         Mas é sempre reconfortante lembrar que há males que vêm para o bem. A falta da empregada pode fazer você achar aquele documento escondido nas dobras do sofá da sala. A falta de gás pode sugerir uma receita nova de salada. O parente chato pode ser um bom encanador e livrar você daquele eterno vazamento no banheiro. No caso da jarra quebrada, tive a grande vantagem de me livrar daquele gostinho de terra que sempre fica na boca depois de um copo de suco de beterraba.    

06 novembro 2012

Territórios sagrados



        

Numa entrevista do escritor Mia Couto, fico sabendo que nos idiomas nativos de Moçambique não existe uma tradução para a palavra futuro. Para os povos originários daquele país, o futuro é um território sagrado ao qual não se tem acesso. Comentando isto com Glória, minha mulher, ela lembrou que esta noção não é alheia à nossa cultura, pois é comum ouvirmos dizer que “o futuro a Deus pertence”, o que significa também que está fora do alcance dos desejos humanos.
         Não é à toa que os charlatões de todas as espécies se envolvem numa aura de mistério e misticismo quando querem ludibriar a boa fé daqueles que desejam saber o que lhes espera no futuro. Eles precisam causar a impressão de intimidade com o sagrado para dar credibilidade aos seus vaticínios.
Houve um tempo em que estava em moda a profissão de futurologista. Eram senhores pós-graduados nas melhores escolas de economia dos Estados Unidos que tinham por missão dizer aos sub-desenvolvidos que não existia salvação para nós fora da tutela norte-americana. Em vez de turbantes e bolas de cristal, usavam enormes computadores para nos dar a impressão de infalibilidade. Hoje, devem estar todos desempregados.
         Dando meia-volta em nossa conversa, podemos também dizer que o passado é também um território sagrado e inacessível. Não é à toa que uma deusa, Mnemosine, guarda as chaves da nossa memória. Os deuses sabem o quanto nos perturbaríamos se tivéssemos acesso a cada momento vivido. A perda da memória é uma benção divina. Não apenas selecionamos os momentos de nossas vidas que merecem ser lembrados. Somos capazes de criar lembranças que encubram aquelas que podem nos causar desprazer.
         Deixemos aos deuses esses dois lugares inacessíveis aos mortais e cuidemos da vida presente, sem mistificações, como queria Drummond. Consolemo-nos com os efêmeros momentos dos sonhos em que podemos vislumbrar as fronteiras desses territórios sagrados. 

24 outubro 2012

Aprendizes da palavra

  O poeta é aquele que está sempre aprendendo a falar. É por isso que todos nós somos poetas. O ‘infans’, que em latim significa o sem palavra, vive desde e para sempre dentro de nós. Somos todos morada de um eterno infantil. Carregamos um estranho infante em nossas entranhas. Uma criança estrangeira ávida de palavras com que habite o país da linguagem. Um núcleo infantil que tentamos esvaziar com as palavras, mas que se renova a todo instante, insatisfeito com a matéria que lhe ofertamos. Somos eternos famintos de poesia.

Nascemos imersos na linguagem, mas a linguagem dos primórdios é um grande enigma depositado em nós por esse outro que nos fala e só aos poucos aprendemos a traduzir. Não entendemos, de saída, as palavras. Mas somos desde logo envoltos em sons, imagens, odores e gestos aos quais, aos poucos, serão adicionadas as palavras com as quais as identificaremos. A complexidade da fala dos adultos, entretanto, deixará muitas falhas na compreensão das mensagens pelo aprendiz da palavra. Haverá sempre um resto destes sons, cheiros, gestos e cenas primordiais que fazem permanecer o infante em nós.

Como ensina o poeta Carlos: precisamos sempre aprender novas palavras e tornar outras mais belas para dar vazão aos enigmas que restam e instigam, exigindo tradução. A tarefa do escritor, nos diz Proust, é a tarefa do tradutor. Para escrever o livro essencial que existe em nós, acrescenta, o escritor não precisa inventá-lo. Precisa apenas traduzi-lo.    
         A função do poeta é fornecer novas palavras que facilitem este trabalho tradutivo. É função de todos nós ofertar a palavra poética a um número cada vez maior de falantes, para que todos, ricos de novos sentidos, possamos dar a este infante, que ri e chora em cada um de nós, as palavras que nos faltam para nomear as origens deste riso e deste pranto. 

Imagem obtida em: araucaria.pr.gov.br

Aprendendo a perder



A vida é uma travessia de perdas. O barco pesado da nossa existência precisa se livrar de seus excessos para cruzar sem sustos o caminho de uma margem a outra deste rio imprevisível. Ganha-se muito quando se aprende esta verdade: viver é aprender a perder.
Sou um campeão de perdas. Já perdi a infância, toda a juventude, boa parte da saúde que herdei da idade madura. Já perdi pai, mãe, filhos, irmãos, tios, primos e sobrinhos. Alguns dos meus amigos já se foram, alguns mesmo antes de morrer. Muitos sonhos inúteis também foram jogados à água. Muita presunção, muitos desejos descabidos.
Já perdi bondes, trens, ônibus e aviões. Até a barca de Cabedelo já perdi um dia. Cheguei atrasado em muitos encontros. Já esperei por muita gente em vão. Já esperei o sol e choveu muito. Já esperei a chuva e o céu limpou. Perdi livros, perdi cartas, perdi talões de cheques, perdi brigas. Perdi a cabeça muitas vezes. Perdi a paciência com os políticos.  Já perdi a conta dessas perdas.
De nada adiantou tanto esforço em construir, juntar, acumular. Discos, livros, bugigangas, pedras apanhadas nos caminhos, tudo lastro inútil, destinado ao fundo do rio. Inúteis as centenas de resmas de papel desperdiçadas em dissertação, tese, artigos, poemas, contos, crônicas, romances. Tudo isto será jogado às águas antes do barco aportar na outra margem.
A esta altura da vida, meu barco está quase vazio. Até mesmo a lembrança de certas coisas já está se perdendo. Luto em manter um mínimo de fios de memória para poder saber quem em sou ao chegar ao fim desta viagem. Pois terei ao menos de dizer meu nome ao barqueiro do outro barco que me espera para outra travessia. E é bom que eu chegue leve, pois os braços de Caronte estão fatigados com o eterno trabalho de conduzir seus passageiros pelo rio onde se perde de vez toda a memória.

Imagem obtida em: clubedotaro.com.br

13 outubro 2012

Duas cenas




Na semana passada, testemunhei duas cenas, ambas em Cabedelo.
Cena 1: um grupo de mais ou menos cem crianças atravessava a pista, vindas da praia em direção à escola. Displicentemente, uma delas deixou cair sobre a pista uma embalagem de salgadinho. Logo depois, uma das professoras que acompanhavam o grupo apanhou discretamente a embalagem e seguiu seu caminho.
Cena 2: no beco estreito da feira de verduras e frutas, um homem jaz no chão lamacento, acometido de um ataque epiléptico. Sentado no chão, outro homem protegia com as mãos a cabeça do outro, evitando que entrasse em contato com a lama. Não havia curiosos em volta. As pessoas apenas passavam comovidas, certas de que nada mais havia a fazer além do que estava sendo feito: cuidar e esperar que chegasse o socorro competente.
Estamos tão entorpecidos pelas notícias de violência e corrupção que nos surpreendemos com essas mínimas demonstrações de respeito e solidariedade cotidianas. Elas acontecem em toda parte, mas não merecem espaço nos noticiários. É preciso catá-las com os nossos próprios olhos. E estes olhos estão viciados a enxergar somente aquilo que a mídia nos mostra: professoras desmotivadas, alheias à educação integral dos seus alunos; homens embrutecidos pela vida miserável dos restos de feira.
Só os olhos sem vícios podem ver o gesto pedagógico espontâneo que vale por mais de mil palavras de um discurso ecológico vazio. Só com os olhos voltados para o chão podemos ver a cena de amor ao próximo contra o fundo lamacento de um beco.
É por conta de cenas como estas que ainda não me deixei vencer pelo desencanto com a humanidade. Pois eu sei que é exatamente isto que a grande mídia quer: que eu perca de vez a esperança e passe a aceitar como normal toda a maldade que os poderosos nos impingem. A grande mídia pertence aos poderosos. Mas contra isto ainda temos os gesto de cuidado que se repetem nas escolas abandonadas pelos governos e nos becos fétidos das feiras.

03 outubro 2012

Duas bocas

Fugu é o nome que recebe no Japão o nosso prosaico baiacu. Um peixe extremamente venenoso que se transforma em iguaria rara nas mãos de raros cozinheiros que passam anos aprimorando a técnica do seu preparo. Os cozinheiros mais experientes não tiram todo o veneno do peixe. Sabem que, em porções mínimas, o veneno do fugu não mata. Acende a paixão dos comensais.  
Fugu é o pseudônimo da autora de “Duas bocas – histórias de comida e sexo”, publicado pela Nova Fronteira em 2011. É também o codinome pelo qual se chamam os dois amantes que compartilham cama e mesa nas 35 histórias do livro, cada uma acompanhada de uma receita testada pela autora.
Neste tempo de pornográficos tons de cinza, é um prazer – um verdadeiro prazer – ter nas mãos as variações de todas as cores do erotismo em um livro que respeita a nossa inteligência e alimenta nossa sensibilidade.
A orelha do livro nos informa que o uso de pseudônimos é “tradição entre os que falam dos prazeres do corpo”. É bobagem, portanto, pensar que o pseudônimo serve para esconder. Despido do seu próprio nome, o autor, “nu, sem história, sem signo no zodíaco nem CPF, consegue atingir a liberdade que só os seres imaginários possuem”.
Seres imaginários nos tornamos nós, os leitores, imersos em nossos próprios corpos, guiados pelas palavras da autora em direção a lugares estranhos do nosso corpo, onde pulsam desejos que relutamos em aceitar como nossos.
“Duas bocas” é um livro tratado por mãos experientes que deixam no texto a porção exata de erotismo para que não nos afoguemos em nosso próprio desejo. Porção sabiamente conservada no corpo do texto, suficiente para sentirmos em nossa própria boca o dilúvio que antecede a posse do corpo amado.   

26 setembro 2012

Para Marília, depois de João



Foi muito mal para mim não ter escrito logo sobre tudo  que senti ao ler o romance de Marília Arnaud, Suíte de silêncios. Deixei o tempo passar para ir decantando meus sentimentos, pois todo mundo sabe o quanto é difícil escrever sobre qualquer coisa quando estamos dominados pela emoção.
Acontece que demorei demais. Tempo suficiente para vir o João Batista Brito e fazer o comentário definitivo sobre o livro de Marília. Resta muito pouco para mim, mas vou tentar assim mesmo.
Li a Suíte de silêncios no original, a pedido de Marília, quando o livro já estava sendo editado pela Rocco. Qualquer comentário que fizesse seria inútil, pois àquela altura os revisores já estariam triturando o texto em busca do menor deslize da autora. Trabalho inútil, por certo.
Inútil também teria sido qualquer intenção minha em encontrar o menor defeito no livro de Marília. Pois não eram olhos profissionais que o estavam lendo. Eram os olhos de um leitor comum, seduzido, apaixonado por aquela escrita de mulher. Olhos comovidos, compassivos, cuidando para que Duína chegasse inteira ao fim do livro para que eu o pudesse fechar em paz.
Quando o livro saiu, Marília me deu um exemplar que ficou exposto na mesa como a obra de arte que verdadeiramente é. Uma amiga que passava o fim de semana com a gente vinha comentar, chorando, algumas passagens, como se ainda não o tivéssemos lido. Ali estava a prova do valor poético do livro de Marília.
Pouca gente sabe, mas faço parte do grupo das Escritoras Suicidas, sob um pseudônimo que, obviamente, não vou revelar. Acho muito bom este exercício de me colocar no lugar desse ser tão próximo e tão estranho a mim. Mas quando encontro um texto como a Suíte de silêncios, em que uma mulher se revela enquanto se busca em seus ermos, vejo o quanto me falta para entender o espírito feminino.
O livro de Marília me deixou (por um breve tempo) com vontade de ser mulher. 

19 setembro 2012

Pessoas e bichos



 Entremos com cuidado no terreno desta crônica, porque é tênue a linha que nos separa da maldade e da galhofa. Quero tratar, hoje, da morte de um animal de estimação, assunto que invadiu os meios de comunicação há poucos dias. Pisemos levemente para não machucar os sentimentos de pessoas simples e amorosas que viram sua dor ser transformada em um espetáculo grotesco pelas redes sociais e pela grande mídia.

Todo mundo sabe o que aconteceu: Na cidade de Patos, na Paraíba, Genecira criava uma galinha há cinco anos. Rafinha, a galinha, era bem tratada, como todo animal de estimação: ia ao veterinário, tomava banho com sabonete de coco, dormia em berço com ventilador. Um dia, Rafinha desapareceu, para desespero de Gecenira e sua família. Uma semana depois, a polícia prendeu um suspeito que confessou ter trocado a galinha por duas pedras de crack.
A partir daí, segue-se uma série de acontecimentos que amplificaram a dor de Genecira, transformando-a em um espetáculo grotesco servido em grandes porções pelos meios de comunicação.
Foi o oportunismo de um humorista local, o Tatu, que o levou a divulgar no Youtube uma música ridicularizando a perda de Genecira. Não satisfeito, Tatu pediu a permissão dela para fazer o enterro simbólico de Rafinha. Mais de mil pessoas compareceram ao velório. Muitas delas foram prestar uma solidariedade sincera à família. Outras, foram apenas em busca de diversão. Até o prefeito da cidade passou por lá em busca de votos. Sucesso nas redes sociais, o enterro atraiu a grande mídia, com direito a cobertura pela equipe do Pânico, programa da Rede Bandeirantes. Quem viu as fotos ou assistiu aos videos pode constatar: em meio a toda a balbúrdia, a expressão da família de Genecira é de dor e sofrimento. Mas isto não interessava a ninguém.
Fechemos com cuidado esta crônica. Vamos deixar em paz a família de Genecira para fazer o luto de sua perda. Pois esta é a única coisa que ela quis fazer. Chorar sua dor pelo desaparecimento de um ente querido que foi trocado por duas pedras de crack. É aqui que reside toda a miséria e brutalidade que escapou do estardalhaço da grande mídia.  
    
Ilustração obtida em http://www.desenhosdecolorir.com.br

16 setembro 2012

Menina de Noite - lançamento EPSI

'aora

Video de apresentação do meu livro "A menina de noite", elaborado por Raija e Ivan, pais de Gabriela, minha neta, que inspirou o poema. Curtam.

11 setembro 2012

O destino dos livros



Era a experiência afetiva que me faltava. Uma sala com umas quarenta crianças, entre sete e dez anos, me fazendo perguntas sobre o meu livro “A menina de noite”, com variantes sobre minha vida pessoal. As perguntas me surpreenderam. A mais vexatória foi sobre quando eu iria escrever os livros para minhas outras netas. Nada mais natural, pois o poema “A menina de noite” foi escrito no mesmo dia em que nasceu minha primeira neta, Gabriela. Teve uma pergunta quase acadêmica: “o Sr. Acha importante usar os livros como atividade lúdica?” Concordei imediatamente e mudei de interlocutor antes que a futura doutora me perguntasse por que. E frente à dificuldade em fazer as contas sobre a minha idade, um mais atrevido sugeriu: “você devia se aposentar”.
Terminada a sabatina que durou pouco mais de uma hora, tive que enfrentar uma fila de autógrafos assinados em folhas arrancadas dos cadernos. Até minha mulher teve seu momento de celebridade, pois também oi solicitada a autografar algumas folhas. No fim, recebi um abraço coletivo e saí de lá chorando.
A experiência em um colégio de classe média no bairro de Boa Viagem, no Recife, me remeteu a outro momento, há cinco anos antes, quando o poema tinha acabado de ser escrito. Foi no Centro Comunitário de Mandacaru, onde eu ajudava Nara Limeira a monitorar um grupo de leitura de crianças e adolescentes. A garotada se apaixonou pelo poema e fez questão que minha filha, a mãe de Gabriela, ficasse junto com elas quando leram o poema num sábado de festa no Projeto Palavra Plantada, que a mesma Nara desenvolvia na Bica.
Minha própria experiência prova que as crianças, pobres, ricas ou remediadas, amam os livros. Decoram poemas, se apaixonam por personagens, escolhem seus escritores de preferência, ensaiam seus primeiros escritos. Que destino, portanto, têm os livros que eles aprenderam a amar?
A resposta é que existe todo um sistema de embrutecimento da sensibilidade destes meninos. Um arranjo entre os interesses das mídias e a omissão do poder público, resultando em uma manada que repete os mesmos refrões dos arremedos de música, os mesmos passos estereotipados das danças, as mesmas palavras de ordem das gangues e das seitas. Mas é bom saber que dentro de alguns deles existe um ou dois livros dormindo, esperando pelo toque de sensibilidade que os traga de novo para a vida. 

03 setembro 2012

Pobre barata


Sei que alguns leitores vão pensar que estou com falta de assunto, mas garanto que o tema e da maior relevância. Por conta da safra de netas, vez por outra escuto a cantiga em que acusam a barata de mentirosa porque ela diz possuir coisas que de fato não são delas. A barata diz que tem um sapato de fivela, cinco saias de balão, um anel de formatura. É mentira da barata, respondem: o sapato é da mãe dela, ela tem uma saia só, e tem a casca dura.
Conheço muito bem a distância que há entre mim e uma barata, mas consigo entender muito bem as razões de suas mentiras. Ainda era menino quando me pai arranjou para mim uma bolsa de estudos na Associação Brasil Estados Unidos. Finalmente, ia ter uma oportunidade imperdível de estudar inglês no melhor curso da época. Logo no primeiro dia, enquanto esperava o início da aula, fiquei pelos cantos escutando a conversa dos outros meninos. O assunto era a marca do carro do pai de cada um. Disfarcei até onde pude, até que perguntaram a marca do carro do meu pai. Meu pai não tem carro, respondi. E fui embora.
Se eu fosse um pouquinho mais parecido com a barata, inventava uma marca de carro para o meu pai e ia levando o curso até que alguém descobrisse que meu pai era um funcionário público à beira da miséria e que muitas vezes eu não tinha dinheiro nem para o ônibus.
Imagino que a mãe da nossa pobre barata deve ter conseguido uma bolsa pra ela em um desses colégios chiques em que os alunos são despejados de verdadeiros aviões e recebidos por uma equipe de seguranças. E quando perguntam para a barata onde ela mora, ela fala o nome do primeiro bairro nobre que lhe vem à cabeça. E quando perguntam pela marca do carro do seu pai, ela fala o nome do carrão que viu no comercial da televisão.
Melhor seria que a barata tivesse no seu bairro um colégio decente para estudar junto com as meninas pobres como ela. Melhor seria se ela convivesse com pessoas que não medissem o seu valor pelo número de saias que possui, pelas fivelas dos seus sapatos ou pela qualidade do tecido que veste.

Ilustração obtida em: g6leitura.blogspot.com         

29 agosto 2012

O país aleijado



Pouca gente deve conhecer João Schwindt. Ele é o atual campeão da Copa mundial de Paraciclismo realizada neste ano, no Canadá. Sem patrocínio, concorreu com uma bicicleta de segunda mão à prova de contrarrelógio, a sua especialidade.
João Schwindt vai representar o Brasil em quatro provas na Paraolimpíada deste ano, em Londres. Mas para isso precisa de uma bicicleta com câmbio eletrônico, igual a de todos os seus concorrentes. A bicicleta custa R$ 21 mil. Ele recebe R$1.800 da Bolsa-atleta do Ministério do Esporte.
Dois amigos de João lançaram uma campanha no Facebook para ajudá-lo a comprar sua super-bicicleta. Mas até a semana passada só tinham conseguido arrecadar R$3.271. As Paraolimpíadas começam em 31 de agosto.
Como era de se esperar, o Comitê Paraolímpico Brasileiro informou que em nenhum momento João pediu uma bicicleta para disputar as provas. Nem ao menos informou que a sua bicicleta de segunda mão era obsoleta. Os dirigentes do Comitê devem ser cegos-surdos (ou, para manter o espírito paraolímpico, deficientes óptico-auditivos), pois não conseguiram ver as condições do equipamento do atleta em todas as competições de que participou. Tampouco ouviram qualquer comentário a respeito da precariedade com que, não apenas João, mas todos os atletas paraolímpicos enfrentam seus concorrentes internacionais.
         Antes de se tornar um campeão do paraciclismo, João perdeu uma competição em que muitos brasileiros são vencidos. Ele foi atropelado, em Brasília, por um motorista que vinha na contramão.
No território símbolo da violação das leis e da certeza da impunidade, João sobreviveu para nos passar na cara que, muito longe de sermos um país digno de heróis paraolímpicos, constituímos um país aleijado, manco das pernas, claudicando ao peso das nossas desigualdades, esmolando recursos, expondo nossas deformações sociais nos palcos mundiais do requinte tecnológico.  

21 agosto 2012

Mártires da cultura





Antigamente (e bota antigamente nisto), os mais velhos costumavam usar alguns ditados para incutir certos princípios na cabeça das crianças. Lá em casa, minha mãe vivia repetindo: “boa romaria faz quem na sua casa está em paz”. O que significava: é melhor ficar em casa do que arranjar confusão na rua. Outro ditado que ouvi muito foi: “quando a cabeça não pensa, o corpo é que padece”.
Se eu tivesse sido um menino obediente, não estaria agora com o corpo padecendo a falta de juízo que me levou, junto com minha mulher, a fazer uma romaria quase mortal à cidade de São Paulo.
Claro que eu não ia perder o lançamento do meu novo livro na Bienal. Muito menos deixar de ver a exposição dos impressionistas no Centro Cultural Banco do Brasil, nem a exposição de Caravaggio no MASP. Tudo isto em míseros três dias.
Minha mulher costuma dizer que, desdenhando dos nossos 65 anos, saímos de casa pensando que temos 45, para voltar arrastando o peso dos 80. Não foi diferente nesta última viagem. No primeiro dia, passamos a manhã fazendo o reconhecimento do terreno da Bienal, marcando o território das editoras que valiam a pena ser visitadas. Daí, fomos para a Sé, onde fica a o CCBB. Depois de uma hora e meia de fila, passamos mais duas horas impressionados com os impressionistas. Nada mais natural que voltássemos para o hotel, já mortos de cansaço. Mas isto é coisa para os fracos. Tínhamos o lançamento do livro de poemas de André Ricardo, numa mercearia descolada em Vila Madalena. Resultado: chegamos ao hotel já passando das dez da noite.
No segundo dia, passamos a manhã comprando na Bienal. Um mínimo de juízo nos levou de volta para o hotel, de onde saímos às quatro da tarde para o MASP. Para facilitar, pegamos uma saída de metrô que não tinha escada rolante. Chegamos no topo da Avenida Paulista com o coração na boca. Mas Caravaggio e seus seguidores nos esperavam para reconfortar nossos espíritos. Não tinham nada a ver com as dores dos nossos corpos. Mas ainda faltava comprar alguns livros que nos encomendaram. Era só atravessar a avenida e dar um pulinho ali na Livraria Cultura, no Conjunto Nacional. Não sei muito bem o que aconteceu, mas tive a clara sensação de que aumentaram a distância entre o museu e a livraria.
O terceiro dia foi mais maneiro. Cheguei na Bienal às duas da tarde, esperando o meu lançamento que seria às seis. Consegui administrar a canseira até chegar à casa de um casal amigo que nos reconfortou com pão e vinho.
Como ainda dizia outro ditado dos mais velhos: “quem não ouve conselhos, raras vezes acerta”. Por muito pouco não nos transformamos nos mais novos mártires da cultura.  

Imagem obtida em: www.willarte.com.br     

14 agosto 2012

Corrente


Já é a segunda vez que me enviam uma corrente para que eu peça a Deus a cura do câncer. E Ele deve fazer isto nesta sexta-feira, “o dia mundial do câncer”. Eu não devo apenas orar com toda fé, mas mandar a tal corrente para a minha lista de endereços. Se eu fizer isto, garantem, estarei ajudando a realizar o maior sonho da humanidade.
Será que não passa pela cabeça dessas pessoas que se Deus quisesse que o câncer fosse curado ele já teria feito isto há muito tempo? Ou melhor, ele não teria inventado esta doença, pois tudo que existe, segundo dizem, foi criado por Ele.
         Devolvendo a gentileza dos que me enviaram a tal corrente, gostaria de convidar seus autores e divulgadores a uma pequena reflexão: será que o Deus de vocês é tão cruel a ponto de ter uma solução para um mal e se negar a oferecê-la aos homens que Ele mesmo criou á Sua imagem e semelhança?
         Será que este Deus é tão vaidoso que só abrirá mão do segredo da cura do câncer se dobrarmos a espinha suplicando que nos alivie deste e de outros sofrimentos que Ele mesmo nos impôs?
         Ou será que estamos transferindo para a esfera Divina um problema que apenas a nós cabe encontrar a solução? Deus já fez a Sua parte quando nos dotou de inteligência e amor, tornando-nos, com isto, à sua imagem e semelhança.
         Deus tem mais o que fazer do que ficar escutando nossas lamúrias de crianças malcriadas. No momento, suspeito que deve estar criando um outro mundo onde experimentará uma outra humanidade. Pois está provado que esta aqui não deu certo. Não soubemos aproveitar a inteligência que Ele os deu. Usamos este dom divino para criar os artefatos bélicos mais destruidores, os sistemas políticos mais hediondos, os modelos econômicos mais cruéis contra os nossos semelhantes.
         Passem, por favor esta mensagem adiante: a cura do câncer, a erradicação da fome, a paz entre os povos só serão alcançadas pelo uso da nossa razão, da nossa inteligência. E isto Deus já nos deu desde os primeiros dias do Gênesis.      


08 agosto 2012

Servicinho



Desde que me mudei de vez pra Cabedelo, tinha vontade de pendurar a televisão na parede do quarto. Coisa simples, pensava. Claro que não seria eu a fazer o serviço, mas na mão de um bom faz-tudo o trabalho não duraria mais de meia hora.
Suporte comprado, furadeira nova, serviço contratado, dali a pouco eu estaria jogado na cama vendo “Vale a pena ver de novo”. Estaria?
A primeira dificuldade se apresentou com a teimosia dos parafusos em não querer abandonar a base da televisão à qual estavam ligados desde a maternidade. Foi preciso sair para comprar uma chave estrela.
O segundo obstáculo foi a ausência de um manual de instalação. As instruções estavam sucintamente impressas na embalagem, com ilustrações minúsculas que mais confundiam do que orientavam a equipe de montadores. Equipe, sim, pois, além dos dois trabalhadores, eu fui incorporado ao grupo para tentar decifrar as instruções.
Traduzidos os hieróglifos, concluímos que não tínhamos uma chave sextavada para parafusar as bases na parede. Saí novamente para comprar parafusos de fenda.
Já noitinha, televisão fixa na parede, trabalhadores apressados para não perder o último trem, descubro que o cabo da antena não estava conectado. Lá vamos eu e minha mulher desenganchar a televisão da parede para consertar o esquecimento. Jeitosos como Deus nos criou, correu-se sério risco de ver desabar parede abaixo o nosso patrimônio comprado a prestação para assistir o fiasco da seleção na última copa.
Acredito que este foi o último servicinho que precisamos fazer desde que inicamos a “última” reforma, no começo do ano. Ainda tem uma pequena infiltração na entrada do meu quarto que prometeram resolver amanhã. E me garantiram que amanhã mesmo terminam a pintura. Estamos exaustos, os olhos irritados de poeira e as contas bancárias exauridas. Juro por Deus que vai demorar muito até que eu me atreva a fazer o mais mínimo servicinho aqui em casa.   

01 agosto 2012

Vistam saias, meninas: é agosto







Publico de novo porque gosto do texto.  Também gosto de agosto.

Há um certo prazer em falar mal de agosto. Dizem que é o mês das bruxas, onde cai o dia das sogras, foi quando morreu Getúlio e costumam ocorrer desgraças políticas. Pouca gente fala bem de agosto.

Quase ninguém se lembra que é o mês do mais belo luar do ano, promovendo encontros e reconciliações entre os já românticos e convertendo ao romantismo alguns indecisos pós-modernos. Em mim, particularmente, o luar de agosto produz um estado intermediário entre uma lânguida melancolia e uma vontade enorme de uivar.

É certo que em alguns anos agosto lembra um velho sombrio, com suas nuvens cinzentas, suas chuvas fora de hora, invadindo maleducadamente com seus miasmas setembro a dentro. Mas num ano como este, agosto merece ser tratado com toda a consideração. Já na primeira semana faz um sol quase de verão, esquentando um pouco a água do mar, levando à praia uma boa safra de mulheres e, vá lá, alguns homens dignos de nota. Só temos que aturar o vento forte, o bom vento de agosto que, se algumas vezes aborrece ao derrubar varais, espalhar jornais ou varrer areais, nos compensa com um dos mais belos espetáculos ao ar livre: a dança das saias.

E não me venham dizer que isto é coisa que só interessa aos homens. Alguma coisa me diz que as mulheres esperam ansiosas por agosto, preparam-se em academias e clínicas de beleza para o encontro com este mês abertamente masculino. E tenho certeza que uma pesquisa de mercado revelaria um forte incremento no comércio de saias ou cortes de tecidos para elas, cremes e óleos para pernas, além de peças íntimas de langerri a serem desvendadas num momento de estudada distração.

Os homens esperam por agosto como a um velho camarada. Um amigo maroto que faz por nós o que mais gostaríamos de fazer em plena rua: levantar as saias das mulheres.E reparem bem no rosto de uma mulher a quem o vento de agosto vai levantar a saia. Há, de início, uma certa expectativa, quase uma ansiedade, um temor de que não sopre vento nenhum e tenha sido em vão todo o preparo, todo o cálculo de chegar naquela esquina no momento em que um homem, ou um grupo de homens, passa atento pela calçada contrária. Logo, sopra o vento. Primeiro, de leve, deslocando os cabelos e fazendo a vítima fechar os olhos numa mescla de vago aborrecimento e satisfação. Quase um agradecimento.Ato contínuo, vem o farfalhar da saia. Aí é necessário que a dona da saia tenha alguma coisa em uma das mãos. Pode ser um sortimento de livros e cadernos, algum pacote não muito volumoso, até sacola de supermercado serve em certos casos. O importante é que apenas uma das mãos fique livre para segurar a saia em um dos lados, deixando o outro ao sabor do vento de agosto e dos olhos dos seus gratos amigos do outro lado da rua. O movimento, brusco mas não tanto, de segurar um dos lados da saia leva a um certo desequilíbrio que faz com que o volume sustentado pela outra mão ameace cair. Nisso, a mão que segurava a saia vai em ajuda à sua irmã, deixando agora todo o campo livre para o trabalho do vento e dos olhos.

Há variações do rito, é certo. A melhor delas é quando agosto apanha com seu vento um bando de mulheres no meio de uma ponte ou numa rua larga, de preferência ladeirosa, em que estejamos todos subindo. Mulheres na frente, como manda a boa educação, homens regulando o passo até alcançar a melhor distância para um visão de conjunto e, finalmente, ele, o ruidoso, o assobiador, o vigoroso e salutar vento de agosto, causando desordem e euforia, quebrando a monotonia das tardes friorentas. Estamos no começo de agosto. Já é tempo, meninas, vistam saias. E deixem brincar com elas o vento de agosto, para o alimento de vossas vaidades e o bem dos nossos olhos. Antes que todos, olhos e vaidades, sejam desviados pelo despudoramento de setembro, escancarando corpos e tornando vulgar o jogo sedutor que agosto sabe tão bem jogar.

(Publicado em Memória curta, 1996)

Imagem obtida em: soufeitadepalavras-claudinha.blogspot.com

26 julho 2012

A menina de noite



Há alguns anos, Raíja, minha filha mais velha, me deu um bonito caderno de notas, feito à mão, pedindo que eu escrevesse um poema nele. Ao longo de alguns anos, fui escrevendo pequenos versos que foram fazendo sentido por eles mesmos. Em 2007, nasceu Gabriela, minha primeira neta, filha de Raíja com Ivan. Quando saí da maternidade, encharcado de emoção, tive a idéia de compor um poema para minha neta a partir dos versos escritos no caderno que sua mão me presenteou. Depois de trabalhar com um alucinado, telefonei para a maternidade e dei ordem para não sair ninguém. Queria que todos os que apinhavam o quarto ouvissem o poema que acabara de compor: “A menina de noite”.
No fim de semana passado, recebo uma caixa com o timbre da Editora Paulus com vinte exemplares do livro mais bonito que já tive em mãos: “A menina de noite”. Uma artista plástica inspirada, Veruschka Guerra, conseguiu traduzir todo o ambiente de sonho e emoção que tentei imprimir ao poema. O resultado é um conjunto alucinante de imagens que transcende as intenções do texto, ganhando vida própria e levando o espectador para lugares desconhecidos de sua própria alma.
Passaram-se cinco anos desde a concepção até a publicação do livro. Um longo tempo de peregrinação por muitas editoras, até que Veruschka se apaixonou pelo texto e o apresentou ao Alexandre Carvalho, editor infanto-juvenil da Paulus.
Desde que chegou, o livro vem sendo motivo de muita emoção. Uma emoção bem próxima da que sentimos quando Gabriela nasceu. As pessoas em volta do livro repetem as expressões de carinho e espanto de quando se debruçaram sobre a neta recém nascida.
“A menina de noite” é o meu oitavo livro publicado. Seria apenas mais um livro na minha estante se não fossem as circunstâncias em que foi concebido. Seria apenas mais um livro infantil no mercado, se não fosse o carinho e a delicadeza com que foi ilustrado e editado. É este clima de encanto e delicadeza que pretendo estender para quem o embalar nas mãos.

Ilustração: Veruschka Guerra

18 julho 2012

O Luxo da memória



                                                                                Para Carlos Aranha


Estava ouvindo Handel no som do carro e de repente tive uma experiência rara. Me veio a lembrança das manhãs de domingo em Água Fria, o primeiro bairro em que morei no Recife. Bem cedinho, os fiéis eram chamados para a missa ao som da música mais bonita feita para o louvor de Deus. Eu não ia à missa, mas acordava feliz com a harmonia barroca que me prometia um longo dia de folga com direito a ver as moças passando para a igreja, um almoço melhorado e uma matinê com filme de caubói ou uma comédia com Jerry Lewis. Até hoje agradeço ao Cônego Jaime Diniz, pastor da paróquia de Água Fria, por me ter dado de presente esse conjunto de imagens que emerge em minha memória toda vez que ouço a música triunfante de Handel.
A memória é um espaço mágico onde passado e presente se fundem para formar um outro tempo em que descobrimos uma emoção nova, depurada, que abre uma clareira dentro de nós. Uma clareira onde não cabe saudade ou esperança. Um lugar fugidio, uma chispa que, apesar de intensa, depressa desaparece. E mesmo que o episódio relembrado permaneça no pensamento, a emoção se esvai para somente voltar quando outra chispa vier nos visitar.
Não gosto de começar uma história dizendo “no meu tempo...” Dá a impressão que o tempo presente não é meu. O que não é verdade. Todo tempo é meu. O passado, o presente e também o futuro, pois toda vez que faço planos estou vivendo um tempo que ainda virá. Mas não tenho nenhum pudor em começar uma história falando “naquele tempo”. Pois me faz bem falar das coisas que vivi e das que não vivi, mas ouvi falar. Das que não vivi, não ouvi falar, mas que inventei a partir de restos de memória dispersos que juntei para inventar alguma coisa que me falta no passado. 
A memória é um luxo. E a melhor forma de cuidar dela é respeitar os seus movimentos. Deixar que ela nos invada e pegue de surpresa o ser incauto e distraído que dorme em nós. Respeitar, principalmente, os momentos em que ela nos falta, pois é apenas um aviso de que um dia nos abandonará. Mas enquanto estiver aí, uma música no som do carro sempre poderá nos enviar para o som antigo que nos acordava desde um alto-falante no topo da torre de uma igreja de subúrbio.

Ilustração obtida em: educolorir.com

08 julho 2012

O mundo dentro de mim

Um dia eu estava assistindo a um programa sobre vinhos e me impressionei com um vinicultor grego, com ares de sacerdote pagão, afirmando que as cepas que cultivava nas encostas de um monte iam buscar os nutrientes no fundo da terra. Beber aquele vinho, portanto, era entrar em comunhão com a terra, levando para dentro do corpo o que a terra tem de mais puro, mais profundo e mais sagrado.

Desde então, toda vez que bebo vinho, tenho a consciência de que estou incorporando a terra do país em que foi produzido. O que significa que, com o tempo, meu corpo passou a carregar um pouco da terra de muitos países do mundo. França, Itália, Espanha, Portugal, África do Sul, Argentina, Uruguai, Chile... Isto sem contar os territórios gaúchos e franciscanos. Estou até pensando em perder de vez o preconceito e provar alguma marca da Califórnia.

Sei que algum amigo maldoso deve estar insinuando que a maior parte do meu corpo é ocupada pelas terras da Escócia. Outros, mais maldosos, dirão que sou ocupado por terras mais próximas, a exemplo do brejo paraibano. Lembrarão também dos territórios anônimos do malte e do lúpulo levados ao meu interior pelos copos generosos do chope e da cerveja.

Vamos deixar de lado as más línguas, pois estamos restritos ao âmbito dos vinhos. E não me tomem por um desses eruditos conhecedores das castas e processos, que conseguem identificar numa simples taça de vinho os aromas e sabores mais exóticos. Nem me confundam com esses chatos que não conseguem beber um vinho sem deitar falação sobre a qualidade da uva, o ano da safra, as excelências da marca.

Sou apenas um cara incapaz de acumular garrafas numa adega, que adora chegar em casa na sexta-feira com uma ou duas garrafas de vinho para beber com a mulher e quem mais quiser. E a cada fim de semana anexar novos territórios ao vasto mundo do meu corpo.

04 julho 2012

Chuva e melancolia


Eu me lembro das chuvas da minha infância, principalmente aquelas nos fins de tarde, quando escurecia mais cedo e o meu pai demorava mais a voltar do trabalho. Eu me lembro quando a chuva passava e eu ia olhar a água correr pelo canto do meio-fio, levando as coisas pequenas para longe da frente de minha casa. Eu me lembro das meias nos chinelos e o agasalho para as noites friorentas. E desde esse tempo a chuva me deixa nostálgico. Eu sou melancólico de nascença. E nada melhor para um melancólico do que um fim de tarde chuvoso.

Mas hoje em dia as coisas estão tão ruins, que não se pode mais ser melancólico impunemente. Hoje, quando chove, minha nostalgia é substituída por uma enorme preocupação com os grandes e pequenos desastres que perturbam a vida das pessoas. Ruas alagadas, casas inundadas, carros submersos, pessoas levadas pelas águas revoltas sem vias de escoamento.

Antigamente, depois da chuva, saíamos à rua para apanhar tanajuras e comê-las torradas com farinha. E aceitávamos complacentes a companhia das formigas de asa que rondavam as lâmpadas e eventualmente se afogavam no nosso café. Hoje, saímos para ver as pessoas perambulando desoladas, sem ter a quem cobrar a perda dos seus bens ou dos seus entes queridos.

Não quero perder tempo com os pequenos aborrecimentos das inevitáveis goteiras e infiltrações que perturbam as nossas manhãs depois dos aguaceiros. Isto é nada comparado a quem passou a noite levantando móveis e procurando uma casa de parente para dormir. Só tenho a lamentar quando sei que todo esse sofrimento poderia ser evitado se o dinheiro dos nossos impostos fosse corretamente aplicado em programas de esgotamento, urbanização e limpeza pública.

É uma pena que a suave melancolia da minha infância tenha dado lugar à raiva e à indignação. Gostaria de poder olhar a chuva através de uma janela e poder abrir um livro e tomar um chocolate quente sabendo que na minha cidade, no meu país, em todos os lugares do mundo as pessoas também pudessem olhar a chuva em paz. Apenas melancolicamente.

27 junho 2012

Falta coragem


Eu tinha uns doze anos de idade e minha cabeça de menino já ficava confusa com as coisas que assistia nos comícios do Recife. Cid Sampaio, usineiro candidato ao Governo de Pernambuco, recebia, na carroceria de caminhão que servia de palanque, o apoio de Luís Carlos Prestes, o célebre líder comunista.
Não vou desfiar aqui a lista interminável de conchavos políticos que assisti ao longo de minha já longa vida. Um só deles me serve de exemplo emblemático. Trabalhava numa agência de propaganda encarregada da campanha do MDB em Caruaru, lá pelos anos 70. Estávamos na casa de um dos próceres do partido, esperando que “ele” chegasse para começar a reunião. Passava da meia-noite, quando “ele” chegou. Era justamente o adversário do nosso candidato, disposto a negociar os votos de alguns dos seus currais, já que se considerava antecipadamente derrotado.
Pensava que já tinha visto de tudo neste mundo, quando fui insultado pela mais infame das alianças políticas que jamais esperava testemunhar: Lula buscando o apoio de Maluf numa tentativa desesperada de fazer o PT ganhar a eleição municipal em São Paulo.
E aqui, dentro de casa, me causa nojo a fúria com que antigos aliados demitem seus companheiros de ontem como retaliação à ruptura de acordos
Sempre que escolho um candidato para votar, renovo minhas esperanças de que ele tenha coragem para romper o círculo vicioso dos conchavos para atingir o poder. Espero mesmo que ele esteja disposto a perder a eleição, desde que a campanha sirva para implantar na consciência dos eleitores novos valores éticos. Para tanto, é preciso coragem para romper com os velhos padrões de conchavo e corrupção.
Coragem para ultrapassar este tempo de miséria política, colocando definitivamente em primeiro plano os interesses dos cidadãos que pagam os seus salários. É só isto que espero dos políticos em que voto.  

Imagem obtida em: http://www.jogodopoder.com  

20 junho 2012

Pequenas delicadezas


           
        Quando nos viu procurando a passagem para saber o número do portão de embarque, a mulher da limpeza do aeroporto de Santiago perguntou, solícita, se tínhamos perdido alguma coisa.


Ao me ver em dificuldade para me levantar e entregar o dinheiro das passagens do microônibus, uma senhora do banco da frente apanhou o dinheiro da minha mão e entregou ao motorista.

A moça que nos acompanhava no tour pela vinícola Concha Y Toro ficou todo o tempo de olho na gente e de vez em quando pegava a nossa máquina para uma foto juntos: “Agora uma com vocês brindando...”

O recepcionista do hotel de Santiago me perguntou se eu tinha guardado o dinheiro para o táxi quando fui fechar a conta.

Ao nos ver chegar ao balcão da polícia federal, o policial do aeroporto de Santiago falou: “não precisa dizer nada. São mais dois brasileiros que perderam o formulário de imigração...” E nos atendeu sorrindo.

Quando minha mulher ia em direção ao banheiro do avião, um homem notou que o cordão de um dos seus tênis estava desamarrado. Perguntou se ela queria que ele amarrasse.

O executivo argentino foi solícito em facilitar nosso entendimento com a recepção do hotel em Montevidéu. No outro dia, conversou um pouco sobre sua vida de viajante em vários países de língua portuguesa.

Num restaurante do Mercado Central de Santiago, uma mulher brasileira, numa mesa ao lado, me ofereceu o vinho da sua garrafa quando viu que o meu havia terminado.

Há algum tempo, em Sevilha, ao nos ver olhando para o interior de um pátio tipicamente mourisco, um homem nos incentivou aos gritos: “Entra, entra que és mui belo”.

São cenas simples como estas que me asseguram a existência da delicadeza em qualquer canto do mundo. Por mais que alguns mal intencionados queiram nos fazer temer a proximidade de pessoas de lugares diferentes do nosso, um simples passeio pelas ruas nos mostra o contrário. As pessoas querem nos conhecer, querem nos ajudar e mostrar que, acima de nossas diferenças de lugares, línguas e classes, é possível construir pontes de delicadeza e solidariedade.

Ilustração obtida em: cafeentreamigos.com

09 junho 2012

Trêmula borboleta

 Trêmula e cambaleante, levantou-se com o prato de quibe de forno seguro pelas duas mãos, o que a impedia de evitar que a manta xadrez arrastasse no chão, por mais que tentasse segurá-la com os ombros levantados até o pescoço.


Já livre do quibe, protegeu-se com o cachecol e petrificou-se com a lufada fria que assaltou a cozinha quando abriu a porta para o pequeno quintal lajeado.


Precisou esperar que a vista se acostumasse ao escuro para notar o corpo estendido sobre o limo das lajotas no ângulo esquerdo do quintal. Seria um homem, se não fossem as grandes asas abertas ensopadas da chuva que caiu durante toda a tarde.


Tremeu e cambaleou até a gaveta da petisqueira de onde tirou uma vela e uma caixa de fósforos. Acendeu a vela e voltou para o quintal. Debruçou-se sobre o corpo alado e a mão trêmula deixou cair um pingo de cera sobre o peito do estranho visitante. Dois olhos cinzentos recém abertos pousaram no pulso iluminado pela vela. Ali estava tatuada uma minúscula borboleta.


Você de novo, meu amor?disse o alado, é a segunda vez que você me acorda com um pingo de cera. E fez menção de segurá-la pelo braço. Mas ela fugiu arrastando a manta pelas lajotas molhadas até trancar-se na cozinha. E ali ficou, trêmula, ouvindo os passos cambaleantes que alcançaram a porta. E mais tremeu quando, depois das pancadas na porta, ouviu uma voz estranha, estrangeira, gritar: Psiché... Psiché...

(Escrito em parceria com Marina e Carolina, em Moema, Cidade de São Paulo).