30 dezembro 2014

07 - Almeidinha - o herói de paletó

 Um folhetim burocrático


07 - O perfume da discórdia

       
             O Dr. Pacheco, como sempre, estava com a razão. Foi melhor mesmo que a Dona Jackeline voltasse para a repartição dela. Eu voltei a ser o datilógrafo impecável que todos invejavam, não gaguejava mais quando o Chefe tocava o interfone, não perdia meu tempo esperando que desse dez horas para a novata chegar com seus óculos de mosca e aquele perfume que até me dava um pouco de dor de cabeça.
       

Um pouco de dor de cabeça, apenas na repartição. Lá em casa, esse perfume me deu uma dor de cabeça enorme. A cada vez que passava por trás de minha cadeira, Dona Jackeline se demorava mais com a barriga colada em minhas costas. Teve até uma vez que ela se curvou um pouco, dizendo que queria ver o que eu estava escrevendo, e roçou um dos seios na minha cabeça. Foi nesse dia que a minha Senhora sentiu um cheiro diferente quando eu entrei em casa.
                   Que cheiro é esse? Perguntou a minha Senhora, já com um cabo de vassoura pronto para me acertar a cabeça. Disse que não sabia de que cheiro ela estava falando, que eu não tinha pegado ou me encostado em nada que cheirasse mal.
                   Não se faça de besta, berrou a minha Senhora, com o cabo de vassoura já amassando meu nariz. Não estou falando de catinga. Franziu a cara puxando o ar com força pelo nariz. O que estou sentindo é cheiro de mulher. E acrescentou meio zombeteira: quero saber que tipo de mulher é capaz de se esfregar em um homem como você.
                   Foi aí que me lembrei da barriga macia de Dona Jackeline amassando minhas costas. E me veio mais aguda a lembrança do seu seio tocando minha cabeça. Para falar a verdade, ainda sentia uma leve pressão sobre a parte de trás do cabelo.
                   Acho que passei tempo demais entretido com essa lembrança. Devo até ter ficado meio ausente, indiferente às ameaças do cabo de vassoura que ia e vinha na frente do meu nariz.   Almeida, eu estou falando com você. Me responda, de quem é esse perfume? Eu nunca menti para minha Senhora. Sou católico e desde menino minha mãe me ensinou que mentir é pecado. Não era nessa hora que ia começar a traçar meu caminho para o inferno. É de Dona Jackeline, respondi. E quem é essa Jackeline, berrou com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça. Uma colega novata lá da repartição, respondi já com os olhos fechados e a cara contraída esperando a vassourada.
                   Eu não acredito no que estou ouvindo, falou com desdém. Quando abri os olhos, ela estava com as mãos cruzadas sobre a ponta do cabo da vassoura, olhando para mim com os olhos arregalados. Almeida, falou num tom baixo e incrédulo, você está me traindo com uma colega da repartição? Meu Deus, essa mulher deve ser cega para se enxerir para um traste da sua espécie.
                   Baixei a cabeça, passei por ela sem olhar, deixei o saco de pão em cima da mesa e caminhei feito um sonâmbulo para o banheiro. Não tive ânimo para tomar banho. Já vestido com o pijama, apanhei o paletó para guardar no quarto e senti aquele resto de perfume que me invadiu as narinas como invadia todo o escritório às dez da manhã. Passei a mão na parte de trás da cabeça, sem saber muito bem por que.
           porta do quarto estava trancada, a luz apagada. Olhei automaticamente para o sofá e lá estava o lençol de solteiro. Me deitei abraçado com o paletó e demorei a dormir com aquele cheiro me lembrando o tempo todo o perigo que passei com o cabo de vassoura pronto para me rachar a cabeça.

           Não me lembro de ter sonhado com nada, mas acordei com a impressão de que não tinha dormido só. O paletó, todo amassado, tinha escorrido para o chão. Vou chegar mal apresentado no trabalho. Mas antes vou pedir ao Padre Guido que me ouça em confissão.

23 dezembro 2014

Uma prece pagã



Estou em pleno retiro de fim de ano. A copa, as eleições, o mensalão, a lava-jato e  tudo o mais que tumultuou minha vida durante o ano vai ficar do lado de fora da minha casa.  Me dei de presente a esperança do fim do bloqueio a Cuba e me ausentei do noticiário. Ao menos por um mês, só me interessam, exclusivamente, as coisas boas que possa repartir com as pessoas a quem amo. Por isso, quero repartir com você a prece pagã que encontrei numa loja de presentes na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais. É o que eu quero para a minha casa e para as casas de todas as pessoas de boa vontade.    




22 dezembro 2014

"A paixão insone" na Coleção Latitudes




Coleção Latitudes: Literatura em horizonte expandido

Posted by:  , 

Organizada pela escritora Maria Valéria Rezende, a série literária digital tem o objetivo de dar visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos regionais.

mosaico coleção latitudes
Mostra a História que grandes ideias e parcerias nasceram de conversas informais ao redor de uma mesa. Os compositores Tom Jobim e Vinícius de Moraes, por exemplo, conheceram-se numa mesa do bar Villarino, no Centro do Rio. Foi também numa mesa de restaurante que o arquiteto Oscar Niemeyer fez, nas costas frágeis de um guardanapo, o esboço do Museu de Arte Contemporânea de Niterói, uma das mais celebradas obras de sua carreira. No começo do ano, estavam sentadas à mesa de um café, em São Paulo, a escritora Maria Valéria Rezende e a diretora executiva da Revista Pessoa, Mirna Queiroz, quando veio à baila o problema da difusão da nova literatura no Brasil; a dificuldade para se distribuir e divulgar, com lealdade e alcance devido, a rica produção literária escrita e publicada em todas as regiões do país.
Maria Valeria por Daniel Mordzinski
A organizadora da coleção Latitudes, Maria Valéria Rezende. Crédito: Daniel Mordzinski
“A distribuição de livros físicos tem sido uma via de mão única e monopolizada por empresas sediadas no centro-sul. Há anos que eu, paulista aparaibanada, levanto sempre essa questão, não porque tenha pena dos autores, mas porque me parece que é a comunidade leitora do país que perde a oportunidade de enriquecer-se com diferentes pontos de vista, estilos, linguagens”, observa Maria Valéria Rezende.
Dessa incômoda constatação, ficou a proposta de se criar uma maneira de dar mais visibilidade a escritores com talento reconhecido em apenas alguns nichos. Porém, como superar a barreira geográfica? A resposta acaba de ser dada com a coleção Latitudes, inteiramente lançada no formato digital pelo selo Mombak, em parceria com a e-galáxia. A primeira leva conta com cinco títulos, já disponíveis para compra nas principais lojas virtuais do ramo.
“Um dos grandes motivos por trás da pouca divulgação desses escritores é a dificuldade de distribuição num país de dimensão continental como o nosso. O digital elimina essa barreira. Eu vejo essa plataforma com muito otimismo. Facilita o acesso à produção, realmente é mais barato, e encurta o caminho até o leitor. Mesmo quem não tem e-reader pode baixar um aplicativo no computador e ler os e-books. E isso é o que realmente importa: oferecer boa literatura ao alcance do leitor, onde quer que ele esteja”, aponta Mirna Queiroz, que faz o papel de editora.
A organização coube a Maria Valéria Rezende, cuja garimpagem inicial partiu de sua própria biblioteca, dos livros de pequenas editoras regionais que vai coletando no curso de suas viagens. Nessa seleção, figuram os títulos A paixão insone, de Ronaldo Monte; Aqui as noites são mais longas, de Geraldo Maciel; O beijo de Deus, de Dôra Limeira; Palavras que devoram lágrimas, de Roberto Menezes; e Já não há golfinho no Tejo, de Joana Belarmino. De acordo com a organizadora, a escolha final resultou da vontade de apresentar, de cara, uma variedade que incluísse romances, contos e minicontos, de mulheres e de homens de faixas etárias distintas, sendo três obras inteiramente inéditas e duas que haviam tido apenas edições locais já esgotadas.
“Há excelente literatura que só é bem conhecida na região em que o escritor vive e publica, de modo que o que se considera, divulga e analisa como sendo a literatura brasileira não é mais do que uma pequena parte dela, favorecida, com notáveis exceções, pela localização geográfica dos autores”, salienta.

O escritor Ronaldo Monte, autor de A paixão insone. Crédito: Mano de Carvalho
O escritor alagoano Ronaldo Monte, cujo livro explora a solidão e a busca pela ternura na conturbada relação com a violência urbana, atesta a necessidade de se desmistificar a noção de grandes centros literários. Segundo ele, o que existe, de fato, são complexos mercadológicos focados na publicação e na divulgação de alguns grupos de autores ligados a determinadas editoras sediadas, estas sim, em grandes centros comerciais.
Um centro literário, a meu ver, é um lugar que concentra uma produção literária significativa. E neste sentido, a noção de centro está sendo substituída por uma nova tópica em rede com seus pontos distribuídos por todo um campo territorial, virtualmente ligados entre si”, considera o autor.
Natural da Paraíba, o professor Roberto Menezes, que traz, emPalavras que devoram lágrimas, vencedor do Prêmio José Lins do Rego, o fluxo de consciência de uma mulher embalado por camadas de lembranças e desgostos acumulados durante sete anos de um casamento acabado, defende o estado como um centro literário, por concentrar, no cenário atual, excelentes autores que vivem um grande momento na prosa e na poesia.
A definição de grande centro literário é um pouco distorcida, muitos confundem com regiões onde se situam grandes editoras e distribuidores. O formato digital serve para esses autores quebrarem as fronteiras e levar sua literatura a lugares aos quais, muitas vezes, só editoras e distribuidoras dos maiores centros econômicos podem levar o livro físico”, atenta Menezes.
Com entusiasmo, a escritora Joana Belarmino, cujos contos da antologia Já não há golfinho no Tejo primam por um verniz poético, percebe os livros digitais como uma das invenções mais democráticas do nosso tempo.

A escritora Joana Belarmino assina a antologiaJá não há golfinho no Tejo
“Pensava no que seria do meu livro, encapsulado embits e bits, trafegando pela cibervia. Não sei se fui a primeira a comprar. Fui lá e fiz clique, e zaz! Feito pequenas libélulas, transportei para o smartphone os livros de toda a coleção. Abri meu e era como se os contos tivessem ganhado um sabor novo”, conta.
Para 2015, a intenção é lançar mais cinco títulos. Porém, de acordo com Mirna Queiroz, um trabalho sem pressa e cuidadoso, tratando o selo como uma butique literária, que aposta na qualidade e na bibliodiversidade.
Se a coleção responder aos nossos sonhos, daremos várias voltas pelo país. Já temos muitas obras de outras regiões engatilhadas, e passaremos outra vez, mais adiante, pela Paraíba”, complementa Maria Valéria Rezende.
Serviço
Matéria disponível em
http://homoliteratus.com/colecao-latitudes-literatura-em-horizonte-expandido/

21 dezembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó - 06

Um folhetim burocrático

06 - Almeidinha e a novata  

                  
                   O Dr. Pacheco tem muita consideração por mim. Um dia ele me chamou em sua sala, me mandou sentar e disse que precisava muito da minha compreensão. Era coisa simples: uma parenta sua estava com um probleminha na repartição em que trabalhava. Ela era auxiliar de tesouraria e andaram levantando uns falsos sobre a idoneidade dela. Por isso, ela precisava passar um tempinho longe das fofocas dos colegas e, para ajudá-la, Dr. Pacheco sugeriu que pedisse uma transferência provisória para a nossa repartição. Isso, claro, ia ficar só entre a gente. O resto do pessoal não precisava ficar sabendo de nada. Era só eu desconversar se alguém quisesse entrar em detalhes sobre a presença da nova funcionária. Ele mesmo se encarregaria de dar uma informação geral sobre a rápida permanência da moça entre nós. Só mais uma coisinha, falou Dr. Pacheco. Queria que o senhor cedesse o seu birô para ela guardar suas coisas. O senhor sabe, mulher traz muita tralha para o trabalho. Como é por pouco tempo, o senhor pode muito bem ocupar somente a mesinha de apoio da sua máquina de datilografia. Faça isso por mim, Seu Almeidinha. Como já disse, vai ser por pouco tempo. É só a poeira baixar lá na repartição dela.

                   No outro dia, lá pela metade do primeiro expediente, a repartição é invadida por uma mulher de idade meio indefinida, equilibrada em duas longas agulhas parecidas com sapatos, uma faixa estreita de tecido listrado de preto e branco sugerindo uma saia e uma blusa de oncinha tentando cobrir uma fartura de seios ameaçando para já um desabamento. Nos cabelos forçosamente louros se enfiavam as hastes de uns óculos escuros enormes que a deixavam parecida com uma mosca. Não sei não, mas tudo aquilo me pareceu um ato de incontinência pública e escandalosa, digna de punição pelo que eu conheço do direito administrativo. E esta impressão aumentou quando ela fez ecoar, ainda da porta, por toda a repartição: Alôôô. Eu sou Jackeline, a nova coleguinha de vocês. Mas podem me chamar de Jackie. Por favor, onde posso encontrar o Dr. Pacheco?
                   O Ciço, que é o contador, logo, a maior autoridade depois do Dr. Pacheco, levantou-se para dar as boas vindas à nova colega e se ofereceu a acompanhá-la até a sala do chefe. Atrás dela, ia apresentando os colegas enquanto fazia uma primeira avaliação do conjunto da obra. Precisava ver a cara de Dona Marli apertando a mão da recém chegada. Mal abriu a porta para ela entrar na sala do Dr. Pacheco.
                   Os primeiros dias se passavam mais ou menos assim: Dona Jackeline chegava por volta das dez da manhã, passava sem falar por Dona Marli e entrava na sala do Dr. Pacheco. Saía de lá uma meia hora depois, com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado. Como minha mesinha de datilografia ficava do lado do corredor, junto do meu antigo birô, ela tinha de passar por trás de mim, se apertando entre minha cadeira e a parede dos fundos da sala para descansar um pouco antes do fim do expediente.
                   Mesmo me vendo abarrotado de serviço, Dona Jackeline vivia puxando conversa. Queria saber sobre minha vida, se eu era bem casado, se minha mulher trabalhava, que esse negócio de mulher viver em casa era coisa do século passado. Tive de dizer a ela que minha senhora não era nenhuma desocupada. Era promotora de vendas de uma marca famosa de bijuteria, uma dessas que fazem propaganda na televisão. Por isso ela não tinha muito tempo para cuidar de mim como gostaria. Ela escutava com um sorrisinho de quem não está acreditando muito no que ouvia. Chegou até a dizer: puxa, Almeidinha, você precisa de uma mulher que cuide melhor de você. E pousou uma mão caridosa sobre a minha. Com o tempo, ela passou a se levantar com mais freqüência e amassar minhas costas com aquela barriguinha macia, deixando meu paletó com um cheiro leve de perfume francês.

                   Não sei o que estava acontecendo comigo. Chegava na repartição e ficava impaciente esperando que desse dez horas da manhã. Errava mais na datilografia, gaguejava ao atender as chamadas de interfone do Dr. Pacheco.  Cheguei até a sentir uma ponta de tristeza quando o chefe me chamou e disse que eu já podia retomar o meu birô. As coisas tinham esfriado lá na repartição de Dona Jackeline e ela não precisava mais ficar com a gente. Melhor para o senhor, não é, Almeidinha?  Melhor para o senhor.

14 dezembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó


Um folhetim burocrático


05 - A sogra do Almeidinha

                   Nos domingos em que não faz sol, minha senhora me convida para visitar a mãe dela. Não é bem um convite, é mais uma ordem. Na verdade, nem é uma ordem. É uma espécie de fatalidade que eu vou adivinhando desde a véspera, quando ela começa com certos preparativos. Faz uma torta de abacaxi - que a mãe dela adora-, e deixa pronta na geladeira. Já deixa estendido no espaldar de uma cadeira da sala um robezinho leve, daqueles sem mangas, feitos no Ceará, para trocar quando chegar lá. Diz que é o único lugar onde se sente realmente em casa. Compra também de véspera uma garrafa de Martini branco doce, única bebida que sua mãe tolera. Faz tempo que deixou de tomar bebidas fortes. É natural também que leve um pote de azeitonas verdes e uma lata de salsichas daquelas pequenas, próprias para tira-gosto.
                   Quando eu volto da missa, já encontro ela impaciente, de pé, com uma sacola enorme na mão. Aponta com o queixo para a torta, ainda na forma, embrulhada com um pano de prato com dois nós na parte de cima. Ajeito a torta em um dos braços e com o outro pego o guarda-chuva. Nunca se sabe quando vai chover nesses domingos cinzentos. Trabalho mesmo é conseguir fechar a porta da casa com as duas mãos ocupadas. Minha senhora já vai quase dobrando a esquina, em direção ao ponto do ônibus.
                   Não gosto muito de contar vantagem, mas acho que ninguém carrega uma torta com mais competência do que eu. Não somente competência, mas também uma certa elegância. Eu mesmo gostaria de me ver de longe, com o guarda-chuva pendurado no meio do antebraço esquerdo, as duas mãos um pouco avançadas do corpo segurando a torta como um vassalo conduz uma almofada com a coroa real.
                   Chegamos, enfim, ao prédio da minha sogra. Só mais dois andares acima e logo seremos recebidos por aquela senhora indefinidamente situada entre os sessenta e os setenta, um short branco mal cobrindo a flacidez das coxas e uma blusa esvoaçante de seda oncinha, com um decote em nada devedor ao da filha. Beijam-se e abraçam-se como se tivessem chegado da guerra e mal abrem espaço para que eu passe e deposite a torta na pequena mesa da ínfima sala.
                   Enquanto eu caminho entre os poucos móveis para descansar os braços, elas duas se instalam na minúscula varanda que dá para a parede dos fundos do prédio vizinho. Eu já sei o que devo fazer: tirar o gelo, abrir o Martini, levar os cálices e servir as azeitonas e as salsichas.
                   E esse aí, continua na mesma? É o jeito dela se interessar por mim. Nunca fala diretamente comigo, nem fala meu nome pra minha senhora. É sempre “esse aí” ou, quando o Martini já está fazendo efeito, “esse que se diz teu marido”.
                   Eu até gosto de ficar de fora da conversa delas. Levo sempre meu livrinho de palavras cruzadas e fico ali, em paz, sabendo de cor e salteado que o rio da Itália com duas letras é Pó e que o símbolo do chumbo é Pb. Só sinto falta do meu Pequeno Dicionário da Língua Portuguesa para conferir as respostas mais difíceis. Detesto ter que rasurar um jogo de palavras cruzadas.
                   Pergunta a ele se já posso botar o almoço. Pode sim, ele pode muito bem deixar esse vício para mais tarde. É assim que as duas decidem sair cambaleando em direção à cozinha, enquanto eu boto a mesa para quatro. Quatro sim, pois quando ouve o barulho dos talheres, um simpático pequinês, com um lacinho de fita pregado na cabeça, sai do quarto e vem se aboletar numa das cadeiras, rosnando pra mim. Terminado o almoço, a infalível galinha à cabidela com farofa e macarrão, regada a duas ou três latinhas de cerveja, elas se recolhem no quarto e eu fico ali pela sala, esperando a hora do Faustão.

                   Já é de noitinha quando volto a ouvir o falatório no quarto. Sei que minha senhora está trocando o robezinho pela roupa de domingo. Logo-logo ela vai sair dizendo que está atrasada, já quase perdendo a hora do Fantástico. Minha sogra, ainda sonolenta, pede pra filha me dizer que, se não fosse a pressa dela, até passava um cafezinho pra mim. Eu não digo nada, mas sorrio agradecido. É nessas horas que sinto que ela é quase uma mãe pra mim.

07 dezembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó



Um folhetim burocrático

04 - Almeidinha e a santa missa


                   Acho que já disse aqui: sou católico praticante. Não faço nada aos domingos antes de ir à missa. Nem café eu tomo. Minha senhora também é católica, mas bem menos fervorosa do que eu. Só uma vez perdida é que se lembra de ir na missa. É que eu fui criado dentro de igreja. Minha mãe ia todas as noites rezar o terço com as amigas e sempre me levava junto. Eu era bonzinho, ia sem reclamar, diferente dos meus irmãos que fugiam perto da hora do terço começar. Quando fiquei mais crescidinho, o padre me escolheu para ser coroinha. Eu me achava importante com aquela bata alvíssima, enchendo a igreja com a fumaça branca do incenso no turíbulo.
                   Só tenho pena mesmo de não ter pegado o tempo da missa em latim. Minha mãe dizia que era uma coisa linda, parecia que Deus estava falando diretamente com os devotos. Como lembrança de minha mãe, guardo o seu velho missal escrito em latim e fico pensando como devia ser bom responder a missa na própria língua de Deus.
                   Hoje não tem mais latim, nem turíbulo, nem coroinha. A missa virou uma esculhambação, o povo fazendo zoada com umas músicas parecidas com pagode e sertanejo. E tome de bater palmas e dar vivas a Jesus, como se ele fosse um artista de televisão.
                   Teve um tempo que minha mãe inventou que eu devia ir estudar no seminário. Tudo o que pedia a Deus era ter um filho padre. Chegou até a falar com Padre Guido, mas ele disse que ninguém ia mais pra seminário não. Quem quisesse ser padre tinha que fazer vestibular para o curso de teologia. Minha mãe não gostou, pois ela queria mesmo era me ver vestido de batina, trancado no seminário, longe dos pecados do mundo. Nunca mais tocou no assunto. Eu não gostei nem desgostei. Ia ser meio ruim ter que estudar aquilo tudo que se ensinava nos seminários. Minha cabeça sempre foi meio fraca e eu não queria deixar de usar paletó.
                   Hoje, sempre que Padre Guido me pede, eu ajudo ele a dar a comunhão aos fiéis. Padre Guido já devia ter se aposentado, mas com essa falta de vocações, não tem quem substitua ele na paróquia. Ele às vezes até fica zangado comigo, dizendo que eu bem que devia ter virado padre, em vez de ter me casado com uma mulher que nem era lá muito católica.
                   Desde esse dia eu fico insistindo para minha senhora ir à missa comigo. Tem domingo que ela vai, mas tem domingo que não vai. Diz que prefere ir à praia com a amigas no carro do irmão da LIli. Eu me conformo, pois não gosto de contrariá-la. Tem sempre o risco de passar uma semana dormindo no sofá da sala.
                   Mesmo quando ela vai na missa, sempre arranja um jeito de me tirar do sério. Para não perder muito tempo, ela já vai com o biquíni por baixo da roupa. E teima em usar uma blusa bem decotada, que puxa como um ímã os olhos dos homens. Uma vez eu reclamei e ela respondeu que é que tem? O que é bonito é pra ser mostrado.

                   Nesse dia mesmo o Padre Guido me chamou pra ajudar na hora da comunhão. Ele entregava as hóstias para os fiéis e eu botava a salva de prata para recolher as migalhas. Para cada hóstia entregue, Padre Guido dizia, quase balbuciando: corpo de Cristo. Mas não sei o que deu nele quando minha senhora se ajoelhou para receber a hóstia. Com os olhos arregalados em cima do decote dela, falou com a voz trêmula: Cristo, que corpo... Deve ser a idade.

30 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó




Um folhetim burocrático

03 - Almeidinha e o elevador


                   Minha repartição fica no sétimo andar de um edifício no Centro. Eu devia pegar dois ônibus para chegar até lá, mas prefiro pegar um atalho por dentro do bairro até chegar na avenida onde passa o ônibus que me leva direto ao trabalho. Minha senhora vive reclamando que eu devia pegar os dois ônibus, que o dinheiro que economizo na passagem eu gasto com a sola dos sapatos. Que se eu pegasse dois ônibus ia sair mais tarde de casa e ela podia dormir mais meia hora.  Mas neste caso eu não dou ouvidos a ela. Saio de casa com o sol frio e faço a caminhada que o médico me recomendou. É claro que no meio do caminho o sol esquenta e eu transpiro um pouco nas axilas. Às vezes me vem a idéia de tirar o paletó, mas eu ia ficar sem jeito, me sentindo meio nu no meio da rua.
                   O ônibus que eu pego geralmente vem lotado e eu tenho que viajar em pé, o que me faz suar um pouco mais e ainda por cima me amarrota o paletó. O bom é que eu desço a duas quadras do prédio da repartição, não chego assim tão cansado. Não deixo nunca de agradecer a Nossa Senhora quando encontro o elevador funcionando. Pois subir os sete andares naquela escada escura e fedendo a fumaça de incinerador é muito cansativo, embora o Dr. Pacheco diga que faz bem ao coração.
                   Bendito elevador. Quase nunca enguiça. Mas teve um tempo em que as coisas eram muito ruins. O elevador era muito antigo, daqueles com porta interna de sanfona que fazia um barulho incômodo quando abria ou fechava. Estalava, como um monte de ferro velho. Um dia o Dr. Pacheco perdeu a paciência e me pediu para redigir um ofício à Diretoria de Material solicitando a troca do elevador por um modelo mais moderno. Um ano e meio e setenta e três ofícios depois, veio a resposta de que o novo elevador estava sendo licitado. Com pouco mais de seis meses a um ano, a compra estaria finalizada e o elevador seria imediatamente instalado, tão logo fosse feita a licitação. É natural esta demora, pois, como todo mundo sabe, uma licitação é um procedimento administrativo pelo qual um ente público abre a todos os interessados que se sujeitem às condições fixadas no instrumento convocatório, a possibilidade de formularem propostas dentre as quais selecionará e aceitará a mais conveniente para a celebração do contrato. Além disso, ainda se devia esperar pelos serviços de transporte e instalação. Isto leva tempo, muito tempo.  
                   Nesse meio tempo, o velho elevador enguiçou de vez e todo mundo teve que passar a se servir da escada escura e fedorenta. Todo mundo, menos Dr. Pacheco e Dona Marli, que se instalaram numa sala comercial na sobreloja. Não precisa dizer que todos usavam os meus valorosos préstimos para levar os documentos para o Dr. Pacheco assinar. Claro que havia uma certa organização para que não abusassem da minha boa vontade. Descia e subia uma vez às dez horas da manhã, depois levava o expediente acumulado na descida para o almoço. Quando voltava, esperava um pouco que Dona Marli abrisse a porta com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado e me liberasse para subir com a papelada assinada. Só lá para as quatro da tarde é que descia e subia de novo. Sentia um certo orgulho em ser responsável pelo bom andamento do nosso trabalho, fazendo com que ninguém sentisse falta do elevador. Fiquei até me sentindo um inútil quando, finalmente, o novo elevador começou a funcionar.
                   Só me senti um pouco reconfortado porque o Seu Alfredo voltou ao trabalho. Seu Alfredo, se vocês não sabem, é o nosso ascensorista. Durante todo esse tempo eu tive saudade das conversas que a gente tinha enquanto eu subia e descia no elevador. Como eu sempre fui o primeiro a chegar e o último a sair da repartição, viajava sempre a sós com Seu Alfredo. E a gente tinha uma conversa muito íntima, muito produtiva, nos poucos minutos entre o térreo e o sétimo e vice-versa. A gente nunca perdia o fio da conversa e a cada viagem avançava um pouco mais no assunto. Levei mais de um mês para saber que Seu Alfredo tinha sido deixado pela mulher porque ele era sonâmbulo e se levantava várias vezes de noite para abrir e fechar a porta do quarto, falando com voz educada, mas firme: descendo... subindo...
                   Acho que o Dr. Pacheco foi muito generoso mantendo o Seu Alfredo na função de ascensorista, mesmo o novo elevador sendo automático. Seu Alfredo é quem aperta os botões e continua informando aos passageiros que esperam nos andares, sempre com sua voz educada, mas firme, se o elevador está subindo ou descendo, evitando que algum distraído suba quando queria descer ou vice-versa. Se eu não fosse tão atarefado, passava mais tempo subindo e descendo no elevador de Seu Alfredo. É que está demorando muito para explicar a ele o quanto é difícil pra mim me separar do meu paletó.


23 novembro 2014

Almeidinha - O herói de paletó

Um folhetim burocrático


02 - O paletó de Almeidinha

            Minha senhora fica implicando comigo porque eu vivo de paletó. Mesmo quando chego do trabalho, fico de paletó até a hora de tomar banho. Mas no banheiro mesmo eu me troco e já saio de lá com o paletó listrado de marrom do meu velho pijama que minha mulher mesmo me deu no dia do nosso primeiro aniversário de casamento. Ela fica com raiva quando eu procuro por ela na cama e não tiro o paletó do pijama. Ela se vira pro lado e me manda dormir no sofá.
            O problema é que eu não lembro de mim sem paletó. Mesmo nas fotos mais antigas que guardo, lá estou eu, de calças curtas e de paletó. Acho que já nasci de paletó. Me sinto nu quando estou em mangas de camisa. 

            Isto tem me causado sérios problemas nos fins de semana, principalmente quando faz sol. É que minha mulher adora praia. Agora imagine como ela se sentiu quando saímos pela primeira vez para a praia, ela de canga, sandália de dedo, chapéu de sol e uma bolsa grande e colorida com seus apetrechos. E eu de paletó, sapato e meia, com uma cesta de vime cheia de sanduíches e uma garrafa térmica com café, que eu sou viciado em café, embora não fume, porque ela não deixa. A primeira coisa que ela fez foi me proibir de andar junto dela. Apressou o passo e me obrigou a segui-la pelo menos a cinco metros de distância. Sentou longe de mim no ônibus e nem olhou pra trás na hora de descer. Foi um tormento para mim ficar tomando café com as pernas penduradas na murada da praia, enquanto ela tomava sol e passava bronzeador. Os homens passavam com olhos pidões, os mais afoitos se oferecendo para passar o bronzeador e eu sem coragem de ir pra junto dela, com medo de entrar areia no sapato. Mais chato foi quando passou um senhor também de paletó e gravata, com uma bíblia cravada no sovaco e me saudou fraternalmente: na paz do senhor, irmão. Eu sou católico praticante, só saio de casa aos domingos depois de assistir a missa das sete. Não me dou bem com crente.

            Com o passar do tempo, as coisas foram se arranjando. Hoje, ela já não me chama para ir à praia. Arranjou umas amigas aqui mesmo da vizinhança para lhe fazer companhia. Uma delas, a LiIi, tem um irmão muito solícito que leva elas de carro. Acho bom, pois não é seguro um bando de mulheres na praia sem uma companhia masculina. Ele me acena antes de dar partida no carro e diz pra eu não me preocupar.

            Acho bom que as coisas tenham se arranjado assim. Minha senhora se diverte e eu fico sossegado em casa, fazendo palavras cruzadas ou adiantando alguma coisa da repartição. Mas não fico de pijama o dia todo. Quando sinto que está perto da minha senhora chegar, tomo um banho e boto o paletó. Mas dispenso a gravata. Afinal, nos fins de semana eu posso me permitir alguma informalidade.

18 novembro 2014

Almeidinha - o herói de paletó

Um folhetim burocrático


01 – Godofredo, Almeida, Almeidinha

                   Minha senhora se dá ao respeito. Na intimidade, ela me chama pelo nome de batismo: Godofredo. Mas na frente dos outros, ela me chama de Almeida. Quando está com raiva, ela grita Almeida. Basta eu chegar em casa sem o pão, basta eu sair sem deixar o dinheiro do açougue, é matemático. Ela grita Almeida. Ela é de lundum. Tem noite em que manda: Almeida, vá dormir no sofá. Eu nem pergunto por que. Pego o travesseiro e um lençol de solteiro e passo a noite suando na sala. O ventilador fica no quarto com ela. Tem sábado que ela inventa um briga por nada e sai batendo a porta. Nessas horas, nem de Almeida ela me chama.
                   Mas o que eu gosto mesmo é de ser Almeidinha. É como me chamam os colegas da repartição. Colegas, não. Quase irmãos. Tem o Ciço que é contador, tem o Joel, que é escriturário como eu e tem a Dona Marli, secretária do  Dr. Pacheco, nosso chefe. O que gosto deles é que me dão muito valor. Vivem elogiando minha capacidade de compreensão e disposição para prestar qualquer favor, sem medir tempo ou esforço.
                   O Ciço vive cansado, coitado. Se acaba de trabalhar e nunca tem tempo de pagar suas contas. Sei que, se ele pudesse, ele mesmo ia ao banco, à lotérica. Por isso eu nunca me nego quando ele pede e tiro meu tempo de almoço para pagar as contas dele.
                   O Joel, pobrezinho, sofre de dor nas costas e não consegue passar muito tempo sentado no computador. De vez em quando dá uma saidinha para estirar a coluna e me pede para dar conta dos ofícios que ele não consegue digitar. Faço com satisfação, pois sei como é difícil ficar sentado muito tempo com as costas doendo.
                   Dona Marli é a que menos me dá trabalho. Também fica muito difícil pra mim fazer o que ela faz. Lixa as unhas, passa esmalte, passa batom e vive ajeitando o sutiã e arrumando o cabelo. Principalmente quando sai da sala do Dr. Pacheco.
                   O Dr. Pacheco, esse, é uma figura imponente. Entra na repartição por uma porta só dele e passa pelos funcionários com a cabeça levantada, nos olhando por baixo dos olhos. É meio gorducho e tem uma papada denunciadora dos anos que os cabelos pintados querem esconder. O rastro de lavanda que deixa entre os birôs demora a desaparecer. Dona Marli o recebe de pé, curvada como uma gueixa, segurando a maçaneta da porta já aberta e entra na sala logo atrás do chefe. Sai meia hora depois com umas mechas de cabelo fora do lugar e o sutiã meio desequilibrado. Pra não dizer que não me pede nada, pede que eu lhe traga um copo d’água. Não é pra menos, coitada, tão afogueada que sai da sala do Dr. Pacheco.
                   Quem chega na repartição estranha ao me ver sentado num birô no fundo da sala, batucando numa velha Olivetti, daquelas grandes, de cilindro longo. Já estou cansado de ter que explicar porque eu não tenho computador. Eu tinha, até o dia em que Dr. Pacheco me chamou na sua sala e apelou para o meu espírito desprendido e altruísta. Sua filha Suellen precisava fazer um trabalho para a escola e tinha que pesquisar na internet. Acontece que o computador dela deu pau, ele disse, e a pobrezinha estava inconsolável, com medo de ser reprovada. O trabalho era para amanhã. Depois de amanhã, sem falta, Dr. Pacheco traria o computador de volta. Tinha certeza de que o bom e velho Almeidinha não faria questão de passar um dia ou dois usando a Olivetti velha de guerra que nunca deu pau nem deixou cair o sistema.
                   Acontece que já faz dois meses que Dr. Pacheco levou o meu computador. A primeira e única vez que lembrei a ele, me olhou com um desdém esmagador e me indicou com o queixo a porta da sala por onde eu saí apressado e morto de vergonha. O pior de tudo é que eu sabia que ele estava infringindo o artigo 100 do Código Civil. Lá está escrito que os bens públicos são inalienáveis enquanto conservarem a sua qualificação. E o meu computador ainda estava muito bem qualificado. O Dr. Pacheco não podia ter esquecido o artigo 100 do Código Civil. 

                   Esse é o único problema que eu tenho na repartição. Pra se vingar do meu desaforo, Dr. Pacheco me dá muito mais trabalho do que ao Joel. E o Joel, coitado, com aquela dor nas costas, sempre me deixa alguma coisa para fazer no lugar dele. Uma vez pedi para usar o computador dele, mas ele ponderou que um PC era um objeto de uso pessoal, como o próprio nome sugeria: personal computer. E se eu danificasse o equipamento, como ele ia se explicar com o Dr. Pacheco? Melhor não, Almeidinha. Para o seu próprio bem, melhor não.

04 outubro 2014

A dama transitória


         Ela é conhecida como Dama da Noite. Uma for bela e perfumada que começa a se abrir no início da noite, atinge seu esplendor com a noite já alta e amanhece murcha no outro dia. Algumas poucas vezes de um só pé florescem muitas delas. Já foram contadas mais de vinte na casa de uma amiga. Na minha casa, o máximo que conseguimos foi dezoito numa só noite. Mas o encantamento maior acontece quando apenas uma flor anuncia que vai desabrochar. Esperamos a noite com certa ansiedade e no mínimo uma garrafa de vinho.
         Pra que tanta reverência, pode estar perguntando você que me lê, com uma flor que não vai durar mais que uma noite, que amanhecerá murcha e sem graça, fazendo-nos lembrar da transitoriedade de tudo o que agora é jovem e bonito.
         Acho que é justamente aí que reside o encanto da Dama da Noite. Vê-la em todo o seu esplendor nos obriga a fruir sua beleza com toda a intensidade possível, pois sabemos que daqui a pouco iremos perdê-la. Este sentimento de fruição estética se intensifica por conta da mescla com esse luto antecipado, essa certeza de que daqui a pouco o objeto do nosso deleite não estará mais aí.
         Pensando bem, não apenas a Dama da Noite é transitória. Todo o mundo à nossa volta sofre da mesma transitoriedade. Nós é que nos iludimos com a crença de que o mundo e nós somos eternos. Precisamos dessa crença, pois nos custa muito nos acostumarmos com a nossa condição de passageiros neste planeta que também está de passagem. É difícil aceitar que um belo dia a nossa querida Via Láctea vai se chocar com Andrômeda, a nossa galáxia vizinha, e tudo sumirá pelo ralo de um buraco negro. Muito difícil também é nos acostumarmos com a ideia bem mais prosaica de que vivemos num mundo completamente diferente daquele que nos legaram nossos pais. Há uma descontinuidade gritante entre o mundo que emergiu da segunda grande guerra e este que emerge disto que chamamos de pós- modernidade.

         O mundo não é o mesmo, o ser humano não é o mesmo. Nossas esperanças de viver num mundo solidário e pacífico perdem paulatinamente seus fundamentos. Somos todos efêmeros, como a Dama da Noite que ontem nos mostrou sua beleza. Tentemos pelo menos ser bons e belos em nossa pobre transitoriedade.          

23 julho 2014

O verso do mundo



Nos idos de 1991-92, o professor Rubem Alves oferecia um seminário sobre “Temas avançados da filosofia da educação” na pós-graduação em Educação da Unicamp. As tardes das sextas-feiras eram sagradas para mim e Glória. Eram duas horas do mais puro encantamento, ouvindo aquele sábio versar sobre os mais vários assuntos, na companhia permanente da poesia. Cecília, Drummond, Clarisse, Pessoa, Adélia, Bandeira,Paulo Paes e muitos outros mestres da poesia e da prosa nos acompanhavam numa aventura sem rumo aparente que nos levava à reflexão e ao compartilhamento da sabedoria.
O texto que se segue foi o que entreguei a Rubem Alves como trabalho final de um dos seus seminários. Com ele, tentei condensar as passagens mais importantes das nossas reflexões. A prosa poética foi a melhor opção que encontrei para demonstrar o que aprendi com aquele professor de professores. Modéstia a parte, ele me deu o conceito “A”.

O verso do mundo


         No princípio era o verso, as entranhas do mundo a céu aberto. O pai e a mãe do homem dormiam na sombra do tempo.
         O mito. A miragem. A sedução das origens douradas. Palavra. O logos brotava da fonte divina, formando regatos na voz do poeta, pelas musas começando a cantar o início do mundo.
         Com o peso do tempo, o verso se fez carne e desceu ao mundo para habitar entre os homens, partilhar a miséria dos homens, se danar com os homens na eterna busca do tempo perdido, do mito perdido, das delícias do verso perdido.
         Espinho na carne, histericamente pedindo sentido, nunca mais o verso brotaria livre da boca dos homens. Entre o verso e a boca, milhões de represas retendo a luz, deixando escapar as sombras do não dito. Nunca mais o verso, lisa superfície da fala sem mácula. Nunca mais.
         Inverso, antiverso, a prosa do mundo impõe seu império. Proibida a busca das origens, o peso da estrutura esmaga o sonho. Soberana, a história cria os homens, inventa o mundo isento de desejos. Fetos programados sem escolhas. Máquina, projeto, mecanismo digital na bomba inteligente com olhos de ver, como os de Deus. O só sentido da morte.
         Mas a história se distrai e deixa viva num canto a outra versão. Deixa viva a fala do poeta, do profeta que anuncia o retorno do verso. O poeta, o perverso, o que segue o caminho contrário da história. O que volta ao mito, o que busca a fonte. O que se dilacera na sombra em busca da antiga luz.
         A poesia é cura. Na voz do poeta a carne se dissolve em sentido. A nova palavra no lugar do sintoma. A vertigem dos sons no lugar da doença. O que eu quero dizer é o que eu digo querer.
         Foda-se a prosa do mundo. O poeta, o perverso, busca o verso do mundo. Busca uma canção que revele o encanto do mundo. Um mundo sem deus, sem homens, sem história. Um mundo possível de todos os sonhos. Um mundo em que a fronha, suporte do sonho, possa escolher um nome mais belo que o seu nome.  
        


19 julho 2014

Ubaldo e o avião

        
Duas vezes a morte manda notícias. O escritor João Ubaldo Ribeiro morreu na manhã da sexta-feira, 18 de julho de 2014. Na véspera, morreram 298 passageiros de um avião derrubado pela insanidade da guerra ucraniana. 


        A morte de João Ubaldo me deixa triste. Como todo brasileiro minimamente informado, tenho uma admiração invejosa pela sua obra e um carinho muito grande pela sua figura humana. Lamento o vazio que ele deixa em nosso mirrado meio cultural e me conforto por ainda ter alguns dos seus livros que ainda não li. Tenho ainda muito com o que me surpreender e deleitar (por falar nisso, quem surrupiou “Viva o povo brasileiro” de minha estante, faça a gentileza de devolver). A morte de João Ubaldo é uma coisa familiar. É natural que seus parentes e amigos chorem. Assim como é natural a consternação de todos nós, seus leitores.   

        A derrubada do Boeing na Ucrânia me causa revolta. Ela é o resultado de um mecanismo perverso de interesses econômicos, políticos e armamentistas que paira muito acima da minha capacidade de entendimento. Atira-se num avião sem saber da sua procedência, matando-se pessoas sem nenhum vínculo com um conflito que em si já é difícil de compreender. Famílias inteiras, executivos apressados, turistas pacatos e mais de cem cientistas que iriam participar de um congresso sobre AIDS em Melbourne, na Austrália. E verdadeiramente me enoja a manipulação política das partes envolvidas no conflito.   
        Posso acolher a morte do escritor, pois ela faz parte daquilo que a vida nos reserva cedo ou tarde. Mas as mortes na Ucrânia batem na trave do meu acolhimento. Uma, se acomoda calmamente à minha familiaridade. As outras, me apavoram com seu excesso de brutalidade. Me custa crer que pertençam ao mesmo espectro da minha humanidade.   


Ilustração de Peu Teles.  Imagem obtida em varelanoticias.com.br

21 junho 2014

Sentadinho

        

         A coisa toda tinha um ar meio decadente. Eu tinha me esquecido de pagar uma taxa de condomínio que, implacavelmente, foi enviada para cobrança em cartório. No próprio documento de cobrança o cartório já avisava que a parte do credor tinha que ser paga através de cheque visado ou cheque administrativo. Pensei que se tratava de alguma informação caduca que o cartório tinha esquecido de atualizar.  Estava redondamente enganado.  Meus cartões de crédito eram inúteis para enfrentar a exigência burocrática. Dinheiro vivo também não adiantava. Era cheque, ou nada.
         Não sei quem ainda se lembra do que seja um cheque visado. Para obtê-lo, você tem que ir na agência bancária onde tem conta e pagar para que eles te entreguem um cheque todo enfeitado de assinaturas e carimbos, em nome do credor, com o valor já debitado em sua conta. Uma chateação que iria me levar pelo menos o que me restava da manhã e um pedaço da tarde. A outra opção, a do cheque administrativo, se tornou mais atraente. Bastava atravessar a rua, ir numa agência do banco que podia não ser a minha, e comprar um cheque no valor devido.
         Dei sorte, pois a agência estava quase vazia e ainda por cima me deram uma senha preferencial. Eis uma das poucas vantagens de ter ultrapassado a linha vermelha dos sessenta. E foi exatamente essa aparência de avô desamparado que levou a moça do caixa a me falar em um tom afetadamente carinhoso: olhe, vai demorar um pouco, fique ali esperando sentadinho...

         Agradeci a gentileza da moça, mas dispensei o sentadinho. Eu poderia esperar em pé quantas horas fossem preciso, poderia até me sentar um pouco de vez em quando, mas sentadinho, não. Ficar sentadinho significa ir para um canto e lá permanecer quietinho, caladinho, sem causar nenhum incômodo adicional à sua presença decrépita. E quem me conhece sabe que esta é a última coisa que se deve esperar de mim. 

Imagem obtida em www.wikirio.com.br 

28 maio 2014

Atestados parciais





A certa altura da vida, os resultados dos exames médicos se transformam em atestados parciais de morte.  Cada folha de papel entregue pelo laboratório se traduz num recado da morte que avança sorrateiramente pelo território do meu corpo.

Mas esta não é a única forma da morte se instalar em nossa vida. Não estou certo se foi o Cony, mas certamente foi um dos mineiros que, falando sobre o envelhecimento, disse que o passar do tempo vai tornando o mundo cada vez mais despovoado. Chega um momento em que você não tem mais pra quem telefonar. É a forma de a morte nos atacar, sorrateiramente, também pelo lado de fora.    


Na introdução aos seus “Doze contos peregrinos”, Gabriel Garcia Marques conta um sonho sobre a sua morte que deu origem ao livro: ele caminhava alegremente entre os seus melhores amigos no cortejo do seu próprio funeral.  Chegando ao cemitério, os amigos se despedem e começam a voltar. Quando ele tenta acompanhá-los, um deles diz que não, ele é o único que não pode voltar. O escritor então conclui que morrer é não poder mais estar com os amigos.

Por mais que tentemos denegar a presença da morte em nosso corpo, não podemos ficar alheios aos seus estragos no mundo dos amigos. E não estou me referindo apenas ao vazio deixado pelo desaparecimento físico de alguns deles. Muito mais numerosos são aqueles que se afastam de nós ou nos afastamos deles, muitas vezes sem saber muito bem o motivo da separação.

Quando me vejo pensando na morte, sinto-me pouco preocupado com o meu próprio destino numa improvável sobrevivência imaterial. O que mais me preocupa é o sofrimento involuntário que irei causar aos amigos sobreviventes. E quando falo amigos, estou me referindo aos mais variados graus de amizade, desde os familiares mais íntimos até aquele leitor, distante mas afetuoso, que sempre comenta meus textos pela internet.


Por favor, não me tomem por mórbido. Apenas estou me habituando aos poucos aos recados da morte. Aprendendo a conviver com ela. E tudo que mais desejo é que seja uma longa, longuíssima, convivência.    

03 maio 2014

A arte do cuidado




 Você pode estudar muito e se tornar um bom médico, um ótimo psicólogo, um excelente enfermeiro. Mas não tem livro que ensine você a cuidar dos outros.
         O cuidado é uma arte cada vez mais rara entre as pessoas. E quase inexistente entre os profissionais de saúde. Uns alegam falta de tempo, outros se bastam com sua competência técnica. Outros ainda se deleitam sadicamente com o poder que exercem sobre seus pacientes, aumentando deliberadamente o sofrimento alheio.
         Considero-me privilegiado quando encontro quem cuide de mim para além de meus achaques físicos. Quando sinto que a escuta ultrapassa a fronteira da minha anatomia com suas mazelas e se abre para toda a dimensão da minha existência.
         Estou tocando neste assunto porque hoje é o aniversário de uma dessas artistas do cuidado. Uma que, antes de bisbilhotar sobre os estragos do tempo e do mal uso nesta frágil carcaça, abre-me um sorriso que me assegura que cuidará de mim, seja lá o que eu tenha feito de ruim com o meu fígado.

         Alguns a chamam de Doutora Fátima. Eu me reservo o direito de chamá-la, carinhosamente, de Madame Duques. De um modo ou de outro, é a melhor pessoa que me ocorre chamar quando estou precisando de cuidado.   

28 março 2014

Teoricamente


Teoricamente, eu estou morto. Pelo menos é o que atestam todos os exames recentes que o médico me pediu. Ácido úrico, colesterol, triglicerideos, está tudo lá em cima. Isto sem falar no mapa de pressão arterial que me colocaria no livro do Guiness, se houvesse interesse em registrar este tipo de recorde.

Pelo que está acontecendo comigo ultimamente, acho que a coisa não é tão teórica assim. Abstraindo, até onde for possível, alguns achaques leves próprios à idade, vivo num estado de bem-estar que beira a beatitude. Tive, recentemente, uma semana inteira de alegria ao ver o meu trabalho sendo curtido por crianças e adultos na Semana Literária da Estação Ciência que me deu a honra de ser o autor convidado. Ao perceber o encantamento das crianças pelos poemas expostos, um professor de uma escola municipal de Cabedelo, sabendo que eu moro na cidade, preparou, junto com os alunos, uma homenagem para mim. Isto sem falar na satisfação que me dá o acolhimento de Cila, meu livro-poema mais recente (eu ia escrevendo “último”, mas corrigi a tempo) que lancei no último dia da tal Semana. Parece homenagem póstuma, com a pequena diferença de contar com a minha presença.


Desde que comecei a estudar, de vez em quando escuto que “nada é tão prático quanto uma boa teoria”. Espero, portanto, que as coisas se atenham ao âmbito teórico, dispensando as provas empíricas. Vou voltar ao médico, me submeter a todas as exigências regimentais para tentar voltar a peso e taxas próximos do normal. Sei o quanto vão me exigir em cortes de alimentação e prazeres. Portanto, se vocês me virem por aí, pálido esquálido e cabisbaixo, não se assustem: sou eu, novamente, esbanjando saúde.   

16 março 2014

Cila - o poema e o mito




William Costa

Sem desprezar a consistência poética, científica e filosófica de Heráclito, entendo que são uma única água as águas que banham este mundo em ciclos imemoriais - incontáveis idas e vindas ao Céu e à Terra. Urano e Gaia unindo, através da transparente substância, o que Cronos separou.

Os ventos e a água salgada escarificam e lavam a caveira encravada na rocha, livrando de algas e conchas a caixa craniana. Na verdade, trazem de longínquos lugares, e as escondem na tétrica figura, histórias da gênese do mundo. Encoste-se ali a orelha esquerda, e surpreender-se-á com o olvido.

Aportam, desse modo, em nossas praias, sopradas pelos zéfiros que varrem o Oceano Único, histórias do Mediterrâneo - braço atlântico estendido a Oriente. Felizmente, Éolo gosta de histórias, e não de segredos. Por isto, domou os ventos, transformando-os em mensageiros, para a salvação dos mitos.

Ninguém caminha impunemente entre o Atlântico e as Falésias do Cabo Branco. A memória do tempo sobrevive nesta assombrosa paisagem. Portanto um simples tronco seco de madeira, preso nas pedras, pode dar corpo e alma ao mito, que não se entrega e permanece em luta contra o esquecimento.

O poeta vê coisas para as quais os mortais comuns estão cegos. Todos passaram por Cila, mas não a viram, embora reverberasse nas encostas o silêncio – o mais eloquente dos gritos. Sem nada pronunciar, a bela ninfa, que a enciumada Circe transformou em monstro, inundou o bardo de palavras, montando o poema.

Cila era tronco por fora e um rio por dentro. Deste fio d’água subterrâneo, pelo qual escorrem o tempo e a memória, depende a sua sobrevivência. É preciso mais que olhos de lince para transfixar o objeto e contemplar-lhe o âmago. Faz-se necessário possuir os raios X da poesia, para enxergar o que a casca oculta.

A trágica cilada, que já fora cantada pelos célebres aedos de Grécia e Itália, retorna, renovada, nos versos surpreendentes do poeta de Alagoas. Somos todos odisseus. Carecemos de ouvir histórias, ou as versões da mesma história, para suportar melhor a dura jornada, que todos sabemos aonde vai terminar.

Ouçam o canto moderno do poeta alagoano. Que pujante lamento pela condição humana do mito. Que gesto amoroso, este de solidarizar-se com um ser que, num ato suicida para além da imaginação, se desgarra da narrativa e tenta chegar viva à praia ocidental, para, inútil, reivindicar o fim de sua agonia.

Profético, o poeta, dando voz ao Atlântico, anuncia, pela via do esquecimento (talvez a maior dentre todas as traições humanas), o ansiado descanso para a ninfa que Glauco tanto ama. Seca a memória dos homens, é verdade, poeta! Mas livros como Cila reterão a gota, reiniciando o ciclo, perpetuando o mito.





13 março 2014

Convite


10 março 2014

O demônio dos copos

      

Na cozinha de toda casa mora um demônio terrível. Invisível, como todo demônio que se preze, sua proeza é das mais assustadoras: ele faz aparecer copos sujos no balcão da pia.
 Ele age sorrateiro, sem fazer barulho. Quando você suspira aliviado por ter, finalmente, acabado de lavar toda a louça, eis que aparece no canto do balcão dois copos que você jura que não estavam ali há dois segundos. Conformado, você esquece a dor nas costas e volta à lide com água e sabão, adiando o prazer do corpo jogado no sofá com os olhos perdidos naquela novela que você nem sabe o nome.
         Mais cedo ou mais tarde, você vai se cansar da pasmaceira televisiva e vai ver se tem algo de interessante na geladeira. Daí você olha para o balcão e está lá, acintoso, um copo sujo de qualquer coisa. Foi o demônio, você tem certeza, foi o demônio dos copos que botou ele lá.
         Confesso que sou muito propenso a ficar assombrado com certas coisas que acontecem na minha casa. Passado o arrepio inicial, entretanto, a racionalidade me obriga a descobrir a causa da assombração e minha respiração volta ao normal. Mas até hoje não encontrei explicação para o fenômeno dos copos misteriosos.
         A pior coisa que pode acontecer a um lavador de louças é se encontrar sozinho em casa. Porque você tem certeza de que não tem mais ninguém para sujar os copos, sabe exatamente a quantidade que usou durante o dia. Aí, quando você se dá por feliz pelas poucas peças que teve que lavar e enxaguar, eis que aparece, no canto mais distante do balcão, um copo sujo, saído do nada. É o momento supremo das artes do diabo sem nada mais importante para fazer.

         E somando-se ao medo que eriça a espinha, você fica com raiva de saber que, escondido em algum canto da cozinha, o diabo dos copos está rindo de você.